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A Produção de Sal

A Produção de Sal

O sal é utilizado pelo Homem há pelo menos 4000 anos tendo chegado a ser utilizado como moeda. Com este artigo iniciamos uma breve viagem ao interessante e antigo mundo do sal e das salinas.

É muito difícil localizar temporalmente o início do consumo e da utilização do sal pelo Homem. Os primeiros testemunhos da sua utilização datam de há cerca de 2000 anos A.C., sendo transportado como mercadoria pelos fenícios, empregue na salga do peixe consumido pelos troianos, usado na mumificação dos corpos no Egipto e exigido pelo imperador chinês Yu como tributo aos seus súbditos.

No entanto, é bastante provável que o início da extracção deste produto, pela criação de perímetros fechados para retenção da água do mar, remonte a períodos pré-históricos, pois o sal aparece relacionado com todas as manifestações da vida humana. Foi a causa da riqueza de muitas civilizações a ponto de ter assumido, por vezes, características monetárias. A produção de sal por evaporação da água do mar é considerada uma das mais antigas indústrias e é provável que os núcleos de extracção se tivessem desenvolvido conjuntamente com a indústria de conservação de alimentos.

Portugal, com a sua extensa orla marítima, exposta a ventos dominantes fortes e quentes durante uma parte do ano e com Verões de temperaturas elevadas e constantes, esteve, desde sempre, predisposto geográfica e climaticamente a ser um país produtor de sal.

Pouco se sabe deste produto nos períodos pré-romanos, mas é certo que as legiões encontraram já na Península a salga do peixe e a exploração do sal marinho. Os primeiros registos efectivos de exploração salineira no território nacional referem-se, todavia, a um período anterior ao séc. X, na foz dos rios Minho e Vouga. Alguns destes documentos evidenciam a grande importância económica que esta actividade assumiu durante toda a Idade Média. Os salgados avançaram depois, progressivamente, para sul, à medida que a conjectura militar e demográfica permitia o estabelecimento da actividade. A partir do séc. XVI, a exportação nacional de sal, principalmente para os Países Baixos e bacia do Báltico, representava uma das principais fontes de rendimento para a economia portuguesa da época.

Da primeira estatística fiável dos diferentes salgados portugueses, que data dos finais do séc. XVIII, fica-se a saber que a exploração salineira foi abandonada em todas as zonas a norte de Aveiro, sendo a localização geográfica dos restantes salgados da época semelhante à actual. Desde esta altura até inícios do séc. XX, pouco se sabe da evolução da actividade, pela inexistência de estatísticas de produção para cada salgado. Em 1936 os dados apontam para uma situação já completamente diferente. A actividade estava, então, mergulhada numa profunda crise, devido a uma diminuição gradual dos preços do sal no produtor, acompanhada de um aumento dos custos de produção, o que provocou um decréscimo acentuado nas exportações. Para além do abandono de muitas salinas, é também na década de trinta que se iniciam os primeiros planos de rega da bacia do Sado e, com a expansão da área de cultura do arroz, são destruídas algumas salinas.

Foi apenas nos anos 60 que a mecanização se iniciou, particularmente nas salinas do Tejo, Sado e costa algarvia, como resultado de um esforço de dinamização de um sector em franco declínio.

Foi possível, desta forma, aumentar a produção nacional, apesar do número de marinhas ter diminuído. Embora tenha havido uma quebra importante nas exportações, o escoamento da produção era assegurado pela existência de uma frota bacalhoeira e pela utilização deste produto por diversas indústrias químicas, que se desenvolveram a partir do final dos anos 50. No entanto, foram estas mesmas indústrias as responsáveis por uma diminuição da mão-de-obra disponível para a actividade salineira, visto a remuneração por elas oferecida ser notoriamente mais elevada.

A partir dos anos 70, a diminuição da produção de sal foi uma constante e no início dos anos 90 ela atingiu os níveis mais baixos de sempre. As salinas foram abandonadas ou os seus proprietários tentaram convertê-las em actividades mais rentáveis. É com a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia, que surgem fundos comunitários para o estabelecimento de explorações aquícolas, e grande parte desta verba foi utilizada na conversão de salinas. Por outro lado, e particularmente no Estuário do Sado, o número de salinas completamente destruídas para serem substituídas por campos de arroz, aumentou significativamente, em consequência, igualmente, de apoios comunitários.

Com o desenvolvimento da indústria do frio, o sal passou a ser muito pouco utilizado como meio de conservação dos alimentos. Assim, as grandes frotas bacalhoeiras, também em declínio, deixaram de absorver as toneladas de sal de que necessitavam para a conservação do peixe, quer em alto mar, quer para as secas do bacalhau.

As dificuldades para fazer da exploração do sal uma actividade novamente rentável são enormes, pois não existem mecanismos que possibilitem uma competição em termos de mercado com o sal proveniente de Espanha e do Norte de África. Outro problema da comercialização do sal português refere-se à competição com o sal gema proveniente essencialmente da Europa Central e Norte de África, que entra no mercado a preços muito competitivos. Deste modo, face ao estado actual da actividade salineira, se não forem tomadas medidas apropriadas, é uma actividade que corre sérios riscos de desaparecer, o que representará uma importante perda, principalmente, a nível cultural e ecológico.

Fonte: Maria Carlos Reis e Luisa Chaves / Naturlink

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