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Associação Sete Mares: Mulheres lideram projecto para valorizar a pesca e quem nela trabalha

Associação Sete Mares: Mulheres lideram projecto para valorizar a pesca e quem nela trabalha

A Associação Sete Mares nasceu em Rabo de Peixe há pouco mais de quatro meses. Com uma direcção apenas formada por mulheres, e cuja presidente, Lurdes Batista, está ligada directamente à pesca há já 35 anos, confessam que têm como objectivo principal de dar mais dignidade à pesca, muito embora sintam que “o sector piscatório, e principalmente os pescadores e suas famílias, são um tanto esquecidos pela comunidade, comparando com outros sectores primários da nossa sociedade”. Mas querem dar a volta a esse sentimento e como tal contam apostar nos mais novos para que estes possam enveredar por outros mares no mundo da pesca. E para reforçar esta ideia, retomam este ano, no próximo dia 31, a comemoração do Dia do Pescador, vila que acolhe esta jovem associação.

 

Há quanto tempo existe a Associação Sete Mares dos Açores?

Foi feita a escritura de constituição da Associação a 9 de Janeiro de 2017.

 

Como, porquê e por quem foi criada? Quais são os objetivos da referida associação?

A Associação é um projecto que nasceu depois de um sinistro ocorrido em Janeiro de 2016. Após o acidente e depois de uma luta árdua por parte da armadora sinistrada juntamente com cidadãos fora do circuito da pesca, pessoas estas que estenderam a mão à armadora. E depois de verem todo o esforço e luta que é necessária para vingar na vida do mar, acharam que deveriam unir esforços e ajudar os pescadores e armadores bem como as suas famílias, uma associação que lutasse e trabalhasse lado a lado com eles sempre com o objectivo principal de dar mais dignidade à pesca. Assim em Novembro de 2016 foi dado início à criação desta associação. Temos como objectivos a defesa dos trabalhadores da pesca, e suas famílias, melhores condições de trabalho e de rendimentos, promover, organizar e apoiar sessões de esclarecimento sobre os vários assuntos da pesca, alicerçar a solidariedade entre todos os intervenientes na pesca, desenvolver contactos e cooperações entre instituições regionais, nacionais ou mesmo internacionais. Defender os direitos e conquistas de todos os associados, lutar pela melhoria de condições de segurança e bem-estar de todos os associados. Apoiar na formação profissional, para além de prestar todo o apoio burocrático a todos os associados.

 

Esta é uma associação que congrega quem? Só pescadores ou também armadores e suas famílias? De que forma têm conseguido alcançar os vossos objetivos ou tem sido muito difícil alcança-los?

Esta associação congrega todos os armadores associados bem como todos os tripulantes e famílias que nestas embarcações trabalham. Felizmente para nós, e para a associação, fomos muito bem aceites junto dos nossos associados, contamos com cerca de cinco meses de vida, e temos até ao momento 31 embarcações associadas, o que corresponde, sensivelmente, a cerca de 150 pessoas que têm o nosso apoio. Ao nível das autoridades, a Sete Mares teve e tem as portas aberta em tudo o que solicitamos. Temos tido abertura e aceitação em tudo o que temos proposto.

 

Hoje, na opinião da vossa associação qual é o maior problema que enfrenta a classe piscatória de São Miguel e dos Açores? Falta de rendimentos, de peixe, de apoios…?

No entender da Sete Mares, apesar de sermos uma região com legislação comum, a realidade é muito diferente de ilha para ilha. Neste momento, a Ilha de São Miguel é a que mais se debate com o problema da falta de recursos. Têm sido implementadas algumas medidas que futuramente poderão atenuar a situação, tal como as medidas do pescado, os bancos de pesca fechados, a proibição de pescar dentro das 3 milhas, a diminuição do esforço de pesca, entre outras. Mas, no entanto, estas medidas são resolução de problemas a longo prazo, o que a curto prazo tem gerado alguns problemas, como as fracas pescarias causando baixos rendimentos, o excesso de pessoal afecto às embarcações, lembrando que, com a crise na construção civil, foram muitos os trabalhadores de outras actividades que se viraram para o mar.

 

O que tem feito a vossa associação para ajudar os pescadores açorianos com estes problemas?

Como deve imaginar, com 5 meses de vida, não temos um historial muito grande de resolução de problemas, no entanto, podemos salientar que a alteração da portaria da apanha do chícharo já teve o nosso apoio, bem como a distribuição das quotas do goraz pelas embarcações de pesca. Temos dado o nosso parecer a tudo o que o Governo Regional ou as associações propõem para alteração de portarias ou para novas. Temos conseguido recuperar algumas artes de pesca para associados poderem exercer actividade, uma vez que o palangre de fundo foi retirado a muitas embarcações. Temos trabalhado junto dos nossos associados, e com o apoio do Governo Regional e da Capitania, na segurança das embarcações, nomeadamente, colocação de equipamentos de segurança, o que, muitas vezes, além da segurança, dá maior área de pesca, o que poderá aumentar os rendimentos.

 

Como consideram que é vista pela restante sociedade açoriana a classe piscatória? Compreendem os vossos problemas?

Sinceramente, o sector piscatório, e principalmente os pescadores e suas famílias, são um tanto esquecidos pela comunidade, comparando com outros sectores primários da nossa sociedade. Se não, vejamos: o nosso pescado é muito mais valorizado fora da região do que dentro dela, sendo que esta valorização fora da região é uma boa valia para a nossa pesca, mas os pescadores poderiam ser mais lembrados, acarinhados e reconhecidos na sua terra. Porque, se há produto para a venda, se há imposto sobre o pescado e sobre os rendimentos que advém desta pesca, é graças aos pescadores que vão ao mar e se arriscam. E este esforço e trabalho são muitas vezes esquecidos de que esta é uma actividade de grande risco.

 

E as entidades que colaboram com o sector, que retorno tem a vossa associação recebido destas? Governo Regional, autarquias…

Como anteriormente referimos, junto das autoridades fomos extremamente bem recebidos. A Câmara Municipal da Ribeira Grande, na pessoa do seu presidente Dr.º Alexandre Gaudêncio foi das primeiras instituições a saber do nosso projecto, e apoiou-nos com a cedência do espaço para as nossas instalações, aliás, num protocolo que será assinado no dia 31 de Maio. Relativamente ao Governo Regional, nomeadamente por parte do Secretária Regional do Mar Ciência e Tecnologia, bem como o Director Regional das Pescas, temos tido o apoio em tudo, temos trabalhado em conjunto. Não podendo esquecer que a Capitania do Porto de Ponta Delgada, também tem sido um parceiro muito importante.

 

Consideram que os pescadores são o parente pobre dos trabalhadores açorianos?

Claro que a pesca é das actividades que, a nível estatístico, possui os mais baixos rendimentos, principalmente na pesca mais pequena e tradicional.

 

Uma associação de mulheres pescadoras, a Sete Mares? 

Primeiramente, temos de definir e esclarecer a todos que a Sete Mares, não é uma associação de mulheres, somos uma associação de pesca. Apesar de serem três mulheres na direcção, não nos define como associação de mulheres, até porque os restantes órgão são homens. O nosso âmbito não é a defesa das mulheres, é completamente diferente. Somos uma associação de pesca que defende a pesca e os pescadores, sejam eles mulheres ou homens. O nosso âmbito é muito mais vasto.

 

No próximo dia 31 a Associação Sete Mares celebra o Dia do Pescador, na sua sede. Em que consistirá esta iniciativa e esta comemoração?

Sim, iremos comemorar o dia do pescador. Inicialmente era para ser uma pequena cerimónia para inaugurar as nossas instalações e um pequeno convívio entre os associados. Fomos dando conhecimento da nossa vontade às várias entidades e instituições, Director Regional das Pescas, Capitão do Porto, Lotaçor, Mútua dos Pescadores, e, para nossa alegria e orgulho, todas quiseram ter uma voz activa nesta comemoração. A tarde iniciará com a inauguração das nossas instalações e assinatura de cedência de espaço com a Câmara Municipal da Ribeira Grande, de seguida será feita, no porto de pescas de Rabo de Peixe, um simulacro de utilização dos meios de segurança, da responsabilidade da Capitania do Porto de Ponta Delgada, e será uma simulação em que os próprios pescadores terão um papel activo na demostração. De seguida, e já no Clube Naval de Rabo de Peixe, o Director Regional das Pescas fará a apresentação do tema “Criação de Rendimento Alternativo ou Complementar à Pesca”, a Presidente da Lotaçor falará sobre a “Valorização do Pescado”, o Vice-Presidente da Mútua dos Pescadores vem falar sobre “a Mútua dos Pescadores e os Açores”, será feita pela associação uma homenagem aos seus sócios já falecidos e outros armadores falecidos no ano de 2016 e 2017.

 

Porquê comemorar o Dia do Pescador? Faz mais sentido esta comemoração em Rabo de Peixe e nos Açores do que noutra zona do país em vossa opinião?

No nosso entender, pescadores sejam Açorianos ou do resto do país, têm de ser valorizados, e se existe um dia deles, há que assinalá-lo. Este dia é comemorado em todas as zonas piscatórias do nosso território nacional. Em anos passados, este dia foi fortemente assinalado na nossa região, mas de há uns anos para cá, este dia foi “esquecido”. O objectivo de assinalar o dia do pescador, é simplesmente, fazer lembrar à nossa sociedade civil que os pescadores estão aqui, precisam ser mais ouvidos, ser mais presentes e não viver só dentro das suas comunidades, serem mais valorizados e acarinhados. Independentemente do local onde é comemorado, o importante é sê-lo, seja iniciativa nossa ou de outra associação ou entidades, desde que objectivo seja valorizar a actividade e os seus trabalhadores.

 

Quais os projetos futuros desta associação tão recente?

Como associação temos muitos projectos para o futuro. Nalguns deles já estamos a trabalhar, alguns com a colaboração das entidades, temos vontade de trabalhar com os jovens fazendo com que se desloquem da pesca para uma actividade ligada também à pesca mas que não seja só a extracção do mar. Actividades como comercialização, actividades como pequenas unidades fabris de congelação ou outro tipo de transformação. Temos tido abertura da parte do Secretário e do Director para este tipo de projecto, sabendo, de antemão, que não será tarefa fácil.

 

Descrevam-nos quem lidera a associação?

Os órgãos sociais da associação são compostos por 9 elementos: são 4 mulheres e 5 homens, uns pescadores, outros com actividades fora da pesca, como já foi dito. Todas as decisões da associação são tomadas pela equipa com o aval dos associados, quando assim é necessário. O órgão da Direção é composto pela Presidente Lurdes Batista, de 53 anos de idade, armadora/pescadora há cerca de 35 anos, tem como vice-presidente Cátia Botelho, 34 anos, escriturária e a trabalhar no sector das pescas há nove anos, e como vogal Raquel Mestre, 35 anos, Técnica de Ambiente e Qualidade.

Fonte: Ana Coelho / Atlântico Expresso

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