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Francisco Furtado especialista em transportes diz que lhe faz confusão como se debate o tema na Região

Francisco Furtado especialista em transportes diz que lhe faz confusão como se debate o tema na Região

“Pensar e decidir sobre os transportes nos Açores não deve ser deixado à casuística do caso-a-caso” , diz Francisco Furtado.

Correio dos Açores: É doutorado em Engenharia pelo Instituto Superior Técnico e no Programa do MIT- Massachusetts Institute of Technology, Boston (EUA). Trabalha na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) na área dos Transportes. Como chegou à OCDE e quais as funções que desempenha?
Francisco Furtado (Engenheiro Civil e Doutor em Sistemas de Transportes):  Quando terminei o doutoramento o meu orientador, professor José Manuel Viegas, que é um dos maiores especialistas de transportes no país, era Secretário Geral do Fórum Internacional dos Transportes (FIT/ITF) que está integrado na OCDE. Durante o tempo que esteve no comando dessa instituição o professor Viegas procurou reforçar a capacidade de análise e o trabalho desenvolvido pelo FIT. Parte disso implicou recrutar vários especialistas com competências quantitativas, capazes de desenvolver modelos de transporte e fazer análise avançada de estatísticas. Eu fui um desses especialistas recrutados.
O FIT abarca todos os modos de transportes (rodoviário, aéreo, marítimo, ferroviário), sectores (passageiros e mercadorias) e tem países membros dos cinco continentes. Tenho trabalhado em vários tópicos e regiões do mundo. O primeiro projecto em que estive envolvido estava ligado à mobilidade urbana, mobilidade partilhada, em Helsínquia na Finlândia, onde aplicamos um sofisticado modelo de simulação para avaliar os impactos de novas formas de mobilidade nos níveis de serviço, congestionamento e emissões dos transportes dessa área metropolitana. Entretanto, tenho desenvolvido trabalho mais ligado à questão das mercadorias, descarbonização dos transportes e ferrovia (a minha maior área de especialização). Por exemplo, no último ano estive envolvido numa revisão geral das políticas de transporte para a Estónia onde fui responsável pela componente ferroviária. Ainda em 2020 liderei também um projecto ligado à descarbonização dos transportes em economias emergentes e outro de descarbonização na Europa.

Defende algum plano estratégico para os transportes de passageiros e mercadorias inter-ilhas?
Sem dúvida, mas mais do que isso, deveria ser um plano estratégico que incluí os três níveis de transporte da Região: 1) do arquipélago para o exterior; 2) inter-ilhas e 3) dentro de cada ilha. Sem transportes entre ilhas não há arquipélago nem Açores, geograficamente no centro do Atlântico as ligações da Região para o mundo são incontornáveis. Em comum com outras regiões os transportes de superfície, dentro das ilhas, são também fundamentais a todo o tipo de actividades.
Pensar e decidir sobre os transportes – modelos operacionais, apoios do Governo à operação, desenvolvimento da infra-estrutura, regulamentação – não deve ser deixado à casuística do caso-a-caso. Tem de haver prioridades definidas e um pensamento de conjunto que abarque todos os sectores, modos de transporte, ilhas e necessidades. Faz-me alguma confusão a forma como se debate o tema na Região. A associação da ilha X quer isto, o deputado da outra ilha exige mais aquilo, a agricultura quer uma coisa, o turismo quer mais Y, outro diz que o Governo tem de comprar um avião especializado para Z… Obviamente que cada sector tem direito a exprimir os seus desejos e necessidades. Mas o problema é que se vão defendendo coisas e tomando decisões de forma que me parece desconectada, sem fundamentação técnica, sem avaliação dos seus custos e benefícios a médio prazo (incluindo sociais e ambientais) e sem uma avaliação ponderada se as soluções defendidas, e por vezes implementadas, efectivamente resolvem os problemas que existem. Esta lógica do caso-a-caso em grande medida explica a crise que se vive em certos sectores e empresas de transporte da Região. Continuar com esta abordagem é convidar a mais problemas no futuro.
Dada a importância e múltiplos interesses e necessidades que é preciso satisfazer fazer tem de haver um pensamento estratégico definido, de conjunto, discutido com todos os agentes económicos e sociais envolvidos, que dê as linhas mestras de orientação e desenvolvimento para o sector dos transportes nos Açores. Não é uma coisa para fazer todos os anos, talvez uma vez por década, com uma revisão intermédia. É verdade quer numa região com a dimensão e características dos Açores a improvisação é necessária e pode ir resolvendo várias coisas, mas por si só não basta se queremos ter um sistema de transportes sustentável do ponto de vista económico, financeiro e ambiental e que seja capaz de ir satisfazendo da melhor maneira possível as necessidades dos Açores e dos açorianos e açorianas.

Um dos eixos é investir na ferrovia. Na área dos caminhos-de-ferro, acha que Portugal devia investir mais para promover ligações mais rápidas com Espanha e consequentemente com outras capitais europeias, ou tendo em conta os vários modelos de transportes que existem aponta outras soluções?
Ligações a outras capitais Europeias? Berlim está mais próximo de Moscovo do que de Lisboa, a distância de Paris a Lisboa é a mesma que de Paris a Kaliningrado, na Rússia. É preciso ter consciência da geografia e quem luta contra a geografia perde sempre. Portugal está mesmo longe do centro da Europa, na primeira invasão napoleónica as tropas francesas chegaram a Portugal com as botas desfeitas, esfarrapados e esfomeados tal foi a distância que tiveram de percorrer por terra. Os ingleses abastecidos por mar não tiveram grande dificuldades em derrotá-los com o nosso apoio. Foi o princípio do fim do Império Napoleónico Francês, não sou eu que o digo, li isso no Museu do Exército em Paris nos Invalides…
A ferrovia é fundamental para Portugal, mas sobretudo para as ligações internas e a Espanha. No Livro que escrevi para a Fundação Francisco Manuel dos Santos “A ferrovia em Portugal” refiro que a primeira linha de comboio a ser concluída em Portugal foi a ligação Lisboa a Badajoz, até Espanha e daí para essa mítica “Europa”. Pensavam os nossos egrégios avós do século XIX que essa seria a mais importante e prioritária ligação ferroviária do país. A realidade demonstrou que não é verdade. A linha de Lisboa ao Porto teve muitíssima mais procura e até viabilidade comercial.
O eixo fundamental de desenvolvimento da ferrovia portuguesa é ao longo da fachada atlântica da península Ibérica da Corunha na Galiza a Norte, até Faro no Algarve. O coração desse eixo é a ligação entre as duas grandes cidades Portuguesas, Porto e Lisboa, que passa por várias outras importantes cidades médias como Aveiro, Coimbra ou Leiria. A ligação do Porto à Galiza é a ligação ferroviária internacional de maior potencial para o país, a sul a ligação do Algarve até Sevilha também é algo em que se deve pensar a sério. Quanto à ligação Lisboa-Madrid já está em execução quer do lado espanhol, quer do português, e com características e uma lógica faseada que faz muito mais sentido do que o projecto inicial do TGV…
No caso do transporte ferroviário de mercadorias a ligação com Espanha tem ainda mais potencial, sobretudo em articulação com os portos e o mar. Aliás a grande força do país está no mar. Portugal é mais mar do que terra e os Açores jogam aí um papel central.
O mar deve ser uma das maiores apostas dos Açores, se não a maior aposta. Estou a falar de todo o tipo de actividades ligadas ao mar, pesca, reabastecimento de navios, exploração do subsolo marinho, arqueologia marinha, lazer, investigação científica… Os Açores deveriam ser, de facto, a referência mundial nas ciências do mar. Não sei se alguma vez conseguiremos alcançar isso, mas deveria ser esse o objectivo. A “Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030” elaborado pelo professor António Costa Silva vai nesse sentido, há muito por definir nessa visão e ajustes a fazer, mas a orientação e objectivos estratégicos estão lá e acima de tudo isto é uma oportunidade para alavancar esta aposta no mar. Havendo vontade política na região e na república parece-me possível avançar neste sentido.
Isto a mim parece-me muito óbvio, mas a verdade é que sobretudo na ilha de São Miguel havia uma cultura um bocado hostil ao mar, por vezes isso nota-se literalmente em certos edifícios virados de costas para o mar quando a têm uma vista magnífica sobre o oceano… Noutras ilhas, como o Faial, não. Mas São Miguel é, quer queiramos quer não, a maior, mais populosa e economicamente dinâmica ilha dos Açores e por isso acaba por definir muito do que são os Açores. Ora em São Miguel o mar e as localidades a ele associado já foram vistas como uma coisa suja e de gente pouco recomendável… Felizmente isso tem mudado, nas últimas décadas evolui-se muito. Mas basta ver quais as freguesias mais martirizadas pela Covid-19 para perceber que essas marcas permanecem. Apostar no mar significa também mudar essa mentalidade e revalorizar os locais e as gentes que vivem do mar, no plano social, económico e cultural.

Fonte: Correio dos Açores / Nélia Câmara

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