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Capturas de Goraz em 2014 são 1/3 da média da última década – mas a estratégia é esperar…

Capturas de Goraz em 2014 são 1/3 da média da última década – mas a estratégia é esperar…

Desde o ano de 2010 que os pescadores açorianos não conseguiam apanhar a quota de goraz que lhe era destinada pela União Europeia, daí que para os conhecedores do sector a nova redução nas quotas dessa espécie não fosse propriamente uma surpresa: tal como acontecia quando havia quotas para o leite, quando ela não era utilizada normalmente era repartida para outro lado qualquer.

Mas também não passou despercebido que da estratégia oficial do Governo Regional apenas transparecessem detalhes sobre a “negociação”, em que a posição final foi que “o corte da União Europeia é exagerado, mas mesmo assim inferior ao que era proposto”. Não se sabe ao certo qual era a redução defendida pelo Governo e o que se sabe é que a redução foi decidida em 25% para 2005 e 25% para 2016 – quando a proposta da União Europeia era de 34% para cada um desses anos.

O resultado das negociações é que a Região baixa de 904 toneladas para 678 em 2015 e 508 em 2016 (pela proposta europeia ficaríamos com 596 toneladas em 2015 e 393 toneladas em 2016).

Mas o que os números revelam é que desde 2010 que não conseguimos apanhar as quotas que nos eram atribuídas e que, mantendo a tendência dos últimos anos, a quota só será ultrapassada em 2016.

Mas a comparação com o processo das quotas leiteiras tem pouco a ver com as pescas, que claramente não são leite. E o que eventualmente está na mente do legislador europeu é que esses valores apenas são conseguidos através da inclusão do “Peixão”, que é o Goraz juvenil…

O Peixão, que também é o “Pagellus bogaraveo”, tem essa designação enquanto é jovem, e o facto é que apanhá-lo nessa fase tem como consequência provável a redução da quantidade do Goraz. E não é apenas uma questão de mais peso: o goraz custa em média o dobro do Peixão, numa relação que em 2013 estava em cerca de 2,2 para 1: em 2013 o preço do Goraz foi em média de 12,75 euros por quilo, enquanto que o Peixão se ficou pelos 5,55 euros por quilo.

O facto é que aparentemente está-se a apanhar cada vez menos de ambos, mas a diferença em relação ao Goraz é muito mais acentuada. Até ao ano 2000 era comum apanhar-se mais Goraz que Peixão, numa relação que chagava a ser de 60/40; nos últimos 13 anos, no entanto, há apenas um em que a relação é de 50/50; e desde o ano de 2007 que é raro o Goraz representar sequer 40% das capturas. Nos últimos 2 anos o seu peso ameaça baixar dos 30%…

Apesar de haver uma corrente que sugere que parcialmente essa redução poderá dever-se a uma menor actividade por parte das embarcações de boca aberta – que nos últimos anos também se tinham dedicado à captura de Atum –, os números parecem gritar bem alto que há um problema com esta espécie. Na realidade, a redução de 34% preconizada pela UE parecia ir no sentido de uma forte protecção ao Goraz, nomeadamente através da limitação imposta às capturas de Peixão (pois numa situação de ter de se racionar o que se apanha, é óbvio que os pescadores iriam preferir a variedade mais cara).

Quando há 4 anos consecutivos estamos apanhar metade do que capturávamos nos 4 anos antes, e cerca de 40% da média dos 15 anos antes, parece evidente que alguma coisa está mal. Aliás, o Secretário Fausto Brito e Abreu reconheceu esta semana que “há evidências científicas de que há uma redução do `stock` produtor do goraz. Temos dados de capturas e de campanhas científicas, que o Governo dos Açores promove todos os anos, para a sua monitorização e que indicam que esta é uma espécie com que temos de ter alguma preocupação”. E afirmou que o governo “tem entretanto desenvolvido algumas medidas de proteção, aumentando a área de proibição do palangre de fundo, arte utilizada essencialmente para a captura do goraz, das três para as seis milhas, o que permite à espécie recuperar nas zonas costeiras, repovoando, posteriormente, os bancos de pesca”.

O seu desacordo com a opção europeia de redução mais radical reside no que entendeu ser “a necessidade de mais tempo para ver se as medidas adotadas produzem o efeito desejado” .

Aparentemente conseguiu esse compasso de espera, mas se as medidas adoptadas pelo Governo, face a um cenário tão grave, são apenas essas, não é difícil imaginar que são insuficientes. É que os resultados provisórios de 2014 mostram já uma tendência clara: uma redução de 13% na apanha de Goraz, e de 19% no Peixão.

Claro que a decisão final, numa situação extrema, até pode ser a proibição total das capturas. Afinal de contas, os açorianos não são propriamente alheios a estas coisas: praticamente extinguiram a Lapa mas ainda hoje continuam a deliciar-se com pratos como o “arroz de lapas”, que é feito com juvenis…

Por Manuel Moniz in Diário dos Açores

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5 Comentários neste artigo

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    MEU CARO, (TAMBÉM PEREIRA), SERÁ QUE NESSE DIA QUE O SENHOR PRESIDENTE DA FEDERAÇÃO DAS PESCAS FALOU Á COMUNICAÇÃO SOCIAL, FOI ANTES OU DEPOIS DO ALMOÇO?HEM?…É QUE ISSO É IMPORTANTE….SE FOI ANTES DO ALMOÇO, O HOMEM AINDA DEVERIA ESTAR”ENSONADO”, AGORA SE FOI DEPOIS DO ALMOÇO…AI O CASO MUDA DE FIGORINO…É QUE AI ESSAS DECLARAÇÕES FORAM ACOMPANHADAS COM 2 OU 3 GARRAFAS DE VERDELHO…HEHHEHE

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    José Pereira

    Estamos sempre a aprender, para um jornalista, que até pode ter uma veia para a área da investigação ter conseguido num curto espaço de tempo ligar todas as pontas, esclarecendo o comum do cidadão como se chegou a estes números, é de se tirar o chapéu. Gostaria de ouvir o Senhor Presidente da Federação das Pescas desmentir estes dados, porque aquilo que ouvi de ele, e de outros na comunicação social é totalmente deferente, que alguém pago pela Região, de propositadamente tinha dado dados e informações que não correspondiam à verdade para a União Europeia nos cortarem as quotas, lendo este artigo fico com a certeza que o Senhor Presidente da Federação das Pescas está a faltar à verdade.
    Estes dados são públicos como é possível que pessoas com responsabilidades ignorem estes números.

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    pergunto eu, que andou a fazer DOP estes anos tudos,e GOVERNO.

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    Zé de BRAGA

    Excelente artigo, tenho a firme certeza que muitas ilustres pessoas tenham ficado com azia, é pena este artigo não abordar a irresponsabilidade/os responsáveis, que fez, com que chegasse-mos a este ponto. Tudo isto era inesgotável!.

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    ARTIGO BASTANTE INTERESSANTE E ELUCIDATIVO..AINDA ME LEMBRO DO TEMPO…..EM QUE NOSSO SENHOR ANDAVA NESTE MUNDO…

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