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Células urticantes de caravelas portuguesas e águas vivas podem ter novas aplicações biotecnológicas

Células urticantes de caravelas portuguesas e águas vivas podem ter novas aplicações biotecnológicas

Em que consiste este projecto que envolve a presença de águas vivas nos Açores?
João Gonçalves (Director do Centro de Investigação Okeanos, responsável pelo projecto “Águas-VivAz”) – O projecto “Águas-VivAz” é um projecto financiado no âmbito do programa PO2020 Açores, que pretende estabelecer as bases para a monitorização de organismos gelatinosos nos Açores e iniciou-se no Verão do ano passado. 
Na parte da biologia deste projecto estão envolvidos vários investigadores (eu, Eduardo Isidro, Carlos Moura e o doutorando Bruno Magalhães) e técnicos (Domitília Rosa). 
É um projecto em que todos os interessados podem colaborar enviando os seus avistamentos de organismos gelatinosos nos Açores (praias ou mesmo no mar) para um formulário online (link: https://forms.gle/CQBWP1H1q8CUW46A8).

O projecto é recente, mas já deu para ter alguma certeza do porquê de surgirem em certas alturas do ano estes organismos na costa?
Há vários tipos de organismos gelatinosos nos Açores, a revisão que estamos a fazer indica que existem perto de uma centena de espécies diferentes. Contudo, os que se notam mais são as caravelas-portuguesas  (Physalia physalis) e as águas-vivas (Pelagia noctiluca), por serem muito urticantes e ocorrerem em grandes aglomerações na Primavera e início de Verão, e que acabam por dar à costa quando os ventos estão de feição. Como são espécies predadoras de pequenos organismos (zooplâncton e juvenis de peixes) aproveitam o “florescimento” primaveril do mar para também se desenvolverem.  

Há praias que estejam mais susceptíveis ao aparecimento de águas vivas?
Estas espécies podem ocorrer em todas as praias, dependendo da sua orientação face ao vento e correntes. A direcção e intensidade do vento são factores importantes para as caravelas. Este ano está a ser particularmente profuso em caravelas, que têm arrojado aos milhares em praias de várias ilhas dos Açores. Curiosamente as águas-vivas praticamente desapareceram, provavelmente estão em águas mais profundas, são sendo afectadas pelos ventos. 

Estes organismos apesar de frequentes nos Açores, ainda são desconhecidos do ponto de vista científico?
Qualquer destas espécies é comum por todo o Atlântico Norte, algumas são mesmo cosmopolitas, tendo como característica comum o facto de viverem à deriva por toda a zona pelágica (massas de água) do oceano. Assim é normal que ocorram nos Açores, embora haja muita variabilidade de uns anos para outros. 
Há aspectos básicos da biologia destes animais que desconhecemos, caso do ciclo reprodutivo, e este é um dos aspectos que estamos a estudar neste primeiro ano. Assim, esperamos em breve poder responder à questão de estas espécies terem ou não um ciclo reprodutivo bem definido numa época do ano, ou se pelo contrário se reproduzem de forma contínua durante todo o ano. 
A identidade genética destas espécies é outro dos aspectos que também levanta dúvidas, parecendo haver espécies diferentes, mas que morfologicamente são extremamente parecidas. O facto de terem células urticantes com toxinas torna estes organismos interessantes para pesquisa de produtos com princípios activos, que podem ter novas aplicações biotecnológicas.  

O vosso projecto incide nessa pesquisa e futuras aplicações? Há algum projecto nos Açores nesse sentido? 
No projecto não temos nenhum objectivo específico na área da biotecnologia, mas é provável que venham a surgir colaborações com outras equipas de investigação nesse sentido. 
Neste tipo de investigação os resultados são muito lentos, assemelha-se ao peneirar dos garimpeiros à procura das pepitas de ouro. É preciso pesquisar milhares de compostos até que algum venha a ser útil, e isso leva muito tempo, trata-se já de investigação de médio-longo prazo que ultrapassa a curta duração destes projectos de I&D.

Fala-se muito nos Açores em “águas vivas”. É uma espécie diferente das caravelas portuguesas? São ambas abundantes/frequentes nos Açores?
São de facto espécies diferentes, embora pertencentes ao mesmo grande grupo zoológico de invertebrados marinhos, designado por Cnidários, caracterizado por terem as tais células urticantes. Têm em comum o facto de viverem na zona pelágica dos oceanos. As águas-vivas pertencem ao sub-grupo das medusas livres, enquanto que as caravelas têm a particularidade de pertencerem ao sub-grupo dos hidrários, que geralmente vivem no fundo do mar, mas há algumas excepções, como é o caso das caravelas. Curiosamente, uma caravela não é um indivíduo, mas sim uma colónia altamente especializada, de várias dezenas de indivíduos, uns especializados na alimentação, outros na reprodução e outros formando o flutuador. 
Em termos de abundância, as caravelas e as águas-vivas são as duas espécies mais comuns, embora comece a parecer que a abundância é alternada, quando uma das espécies é mais abundante a outra parece ser menos frequente. 

Que cuidados devem ser tidos quando se encontram estes organismos nas praias ou na água?
Evitar “contactos” é o mais sensato. Havendo ocorrência destes animais é desaconselhável estar dentro de água de forma despreocupada. 
Se tiver mesmo que ir á água, o ideal é ter um fato de banho que cubra a maior parte do corpo e usar óculos para poder ter visibilidade dentro de água, sobretudo para as águas-vivas que podem estar em zonas mais profundas.   
Nas zonas balneares dos Açores, existe um sistema de vigilância assegurada pelos nadadores-salvadores, que exibem a bandeira de presença de organismos gelatinosos quando estas espécies são avistadas. 

Que efeitos podem ter estes organismos nos humanos?
Como estes organismos têm as tais células urticantes (cnidócitos), produzem ferimentos extremamente dolorosos (”picadas”), que se assemelham a queimaduras. A sensibilidade pessoal, aliada à extensão do ferimento são factores que podem agravar o problema. Felizmente que na nossa região não ocorrem outras espécies de medusas ainda mais urticantes, caso das pequenas vespas-do-mar, consideradas como um dos animais marinhos mais letais, que por serem transparentes são muito difíceis de ver e já causaram vários acidentes mortais em praias australianas. 

O que se deve fazer depois de uma picada? Há quem diga, e é “sabedoria açoriana”, que a urina é boa. É assim?
No caso de ser “picado”, a primeira coisa a fazer é tirar os tentáculos que estejam agarrados, sem ser com as mãos desprotegidas e colocar logo água do mar, de preferência mais fria, para limpar a zona afectada. Dependendo da extensão da queimadura é conveniente procurar o apoio mais especializado dos nadadores-salvadores ou ir a uma unidade de saúde. O tratamento específico pode depender da espécie que causou a “picada”. 
Por precaução, a utilização da urina não é recomendável, por ser ácida pode ainda agravar mais o problema, assim como o vinagre. O uso de analgésicos pode ajudar a suportar as dores iniciais e as pomadas para queimaduras costumam ajudar no processo de cicatrização. Por segurança é procurar sempre ajuda médica especializada.

Fonte: Correio dos Açores / Carla Dias

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