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Com a criação de um ‘Mar Europeu’ “a nossa plataforma continental deixa de existir”, avisa Adriano Moreira

Com a criação de um ‘Mar Europeu’ “a nossa plataforma continental deixa de existir”, avisa Adriano Moreira

Aos 93 anos, Adriano Moreira recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade dos Açores. A cerimónia de investidura decorreu ontem na Aula Magna, onde durante cerca de 30 minutos o recém-doutorado partilhou uma reflexão sobre o passado do País – recuando ao tempo da sua fundação -, sobre a historia da Europa e da sua constituição enquanto uma União de países. Por fim, Adriano Moreira apresentou a sua perspectiva sobre os desafios que se colocam no futuro.
Entre esses desafios destacou a questão da Plataforma Continental, que considera como uma das “riquezas” do país mas que corre riscos porque “os interesses” que têm de ser defendidos não estão ainda definidos.
Critica também a falta de uma estratégia e realça o contributo que as universidades podem e estão a dar: “Os serviços que têm prestado as universidades, a começar pelos Açores [acrescenta depois a universidade de Aveiro e do Algarve], sobre o estudo da Plataforma são importantíssimos”.
“A Comissão Europeia iniciou os estudos para a criação de um ‘Mar Europeu’. Se isso for aprovado a nossa plataforma deixou de existir”, avisa Adriano Moreira. Acredita que “Portugal tem janelas de liberdade” mas, como já antes tinha exemplificado, a Europa está em transformação. Usa aliás a expressão “degradação da europa” em que se quebrou a confiança entre a sociedade e os poderes. Em que depois da queda do muro de Berlim, se alargou a comunidade sem se ter estudado como deveria governar.
Lamenta que se tenha acreditado no conceito de “fronteiras amigas” sem estudos que as sustentasse e que agora, as “fronteiras de interesses” se tenham sobreposto “às fronteiras geográficas”. Critica quem pôs de lado a diplomacia a favor da economia. Defende que é preocupante a falta de estratégia da Europa para a sua organização interna. Considera que a coroa britânica “está ameaçada” e que os movimentos separatistas podem ganhar espaço.
“Vamos ser afectados”, afirma Adriano Moreira que, mesmo perante este cenário, acredita na capacidade de Portugal: “Não há razão nenhuma para não ter esperança. Não há razão nenhuma para que não se considere o interesse comum dos portugueses e das comunidades”. Sublinha que Portugal pode ter “uma voz importantíssima sobre esta crise”. E na estratégia que deve ser definida e implementada quer a Região quer a Universidade dos Açores têm um papel a desempenhar.

 

Adriano Moreira elogiado e reconhecido na Uaç

A cerimónia solene de atribuição do título de Doutor Honoris Causa a Adriano Moreira foi conduzida pela professora Piedade Lalanda, que começou por passar a palavra a João Luís Gaspar. O Reitor da Universidade dos Açores, lembrou que, de acordo com o regulamento da Universidade, o título de honoris causa é concedido “para prestigiar personalidades”, nacionais ou estrangeiras, que “pelo seu percurso de vida se hajam distinguindo na actividade académica, científica, política, cultural, cívica ou profissional, tendo contribuído para o prestígio e engrandecimento da Universidade, da Região do Pais e/ou da Humanidade”.
João Luís Gaspar acrescentou que neste ano em particular, em que a universidade celebra 40 anos, têm “relembrado aqueles” que, ao longo dos tempos, “permitiram dar corpo” à criação e desenvolvimento da Universidade dos Açores. Adriano Moreira “é inquestionavelmente uma dessas pessoas tendo estado desde sempre ligado à universidade dos Açores, nos mais variados contextos”, afirmou o Reitor, tecendo mais alguns elogios ao recente doutor honoris causa. “Tem sido um verdadeiro amigo desta Universidade”
A atribuição deste título partiu da iniciativa do professor Luís Andrade e foi consensualmente subscrita pela Universidade dos Açores. Na qualidade de padrinho de Adriano Moreira, Luís Andrade fez a apresentação do distinguido.
Durante cerca de 6 minutos resumiu os cargos políticos, sociais e académicos de Adriano Moreira, que foi: Ministro, deputado e líder partidário; Delegado das Nações Unidas, Membro de diversas Academias, nacionais e estrangeiras, Presidente efectivo e honorário de inúmeras instituições; Professor Honorário, Doutro Honoris Causa e Docente numa lista significativa de Universidades e entidades académicas nacionais, europeias, brasileiras e africanas; condecorado com diversas insígnias e distinguindo com vários prémios. Como sublinhou Luís Andrade, o recém Doutor Honoris Causa da Universidade dos Açores conta com mais de “quarenta obras” publicadas e “muitas centenas” de artigos.
Para além (de tudo) disso, “desde a criação do então Instituto Universitário dos Açores – em 1976 – até hoje, o professor Adriano Moreira tem sido um verdadeiro amigo desta universidade”, realça Luís Andrade. Explica que para além da participação de Adriano Moreira em eventos diversos – conferencias, colóquios e seminários – mas também como orientador e júri em, por exemplo, “dissertações de mestrados” e “teses de doutoramentos”. Garante que “o seu constante apoio à Universidade dos Açores tem sido testemunhado por muitos ao longo dos anos”.
De entre tudo o que se deve a Adriano Moreira, Luís Andrade sublinhou o “conceito de poder funcional”, entre outras coisas: “No que diz respeito aos Açores não podemos deixar de referir o seu conceito de poder funcional (…) que ainda concede a Portugal algum poder de negociação internacional”. Outro exemplo foi o conceito de “oceano moreno”, um conceito explicado pelo próprio Doutor Honoris Causa. Enquanto seu orientando por durante cerca de 3 décadas, Luís Andrade testemunha que Adriano Moreira também se distingue pelo seu “grande humanismo e sentido de humor”.

Fonte: Correio dos Açores

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