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Entrevista a Jonas Carreiro, administrador da AZORFISK

Entrevista a Jonas Carreiro, administrador da AZORFISK

“Os Açores e a Madeira são reconhecidos internacionalmente por serem boas origens de pescado.”

Pode fazer a apresentação da vossa empresa, para que os nossos leitores fiquem com uma ideia como nasceu o projecto, porquê a escolha da sua localização e que mais-valias ela representa para a vossa área de negócios que vai desde a pesca, aquacultura, piscicultura, produção, transformação e comercialização de produtos alimentares resultantes da pesca, bem como o de equipamentos e prestação de serviços relacionados com a área das pescas?
A Azorfisk é parte integrante das Scanfisk Companies, cuja empresa mãe é a Scanfisk Seafood Sl, sedeada em Zaragoza, onde para além da sede tem fábrica e armazéns.
O Universo Scanfisk para além da Azorfisk tem instalações em Vigo, Coruña, Celeiro, Merca Zaragoza e Merca Barcelona, comprando e vendendo pescado em todo o mundo para venda na Península Ibérica.
A Azorfisk foi criada em Dezembro de 2015, iniciou a sua atividade em março 2016, estando, no entanto, já a Scanfisk a operar nos Açores com NIF português desde março de 2015, depois de já estar nos Açores a fazer prospeção desde 2013.
A Azorfisk nasceu porque a Scanfisk tem como valores da sua atividade trabalhar nas melhores origens do pescado, seja com empresas e estruturas suas (caso dos Açores e Madeira), seja com fortes parcerias com empresas locais.
E os Açores e a Madeira são reconhecidos internacionalmente por serem boas origens de pescado, mas com muito potencial de desenvolvimento, especialmente na qualidade e forma de trabalhar o pescado.
A localização das instalações sede da Azorfisk são em Rabo de Peixe porque no momento em que foi necessário tomar a decisão final foi a melhor opção custo/benefício, mas relativamente às condições e licenciamento da infraestrutura do que da localização.
Neste momento, a Azorfisk, para além das instalações de Rabo de Peixe, tem uma operação sua em instalações na Terceira, em parceria com uma empresa local, e compra em praticamente todas as ilhas dos Açores, excepção para já ao Corvo e à Graciosa, através de parceiros sólidos e de confiança, para além de deter uma empresa no arquipélago da Madeira, a Fantasticascade.
Desta forma, consideramos ser uma mais-valia da Azorfisk, para além dos seus valores base, sustentabilidade, honestidade, responsabilidade e cooperação, que pensamos serem reconhecidos por todos os intervenientes na fileira do pescado onde operamos, é este triângulo Espanha, Açores e Madeira, com ligações a Portugal Continental, EUA e Canadá através de parceiros e clientes.
No entanto, a característica que mais nos define é a constante busca por fazer diferente, aproveitar oportunidades e descobrir “oceanos azuis”.

Que balanço que pode já fazer da vossa actividade no ano de 2020?
Ao contrário do que possam pensar, o mais duro de 2020 para a Azorfisk não foi a pandemia.
Foi um ano muito, muito, duro de trabalho, de grandes mudanças organizacionais internas ao mesmo tempo que tivemos muitas pessoas de baixa, algumas por motivos felizes, outros por sustos de morte, que não nos quebraram, antes tornaram uma equipa muito mais forte.
Foi duro em termos de trabalho, porque definimos como estratégia de combate à pandemia, não só continuar a trabalhar no terreno, dando a cara por uma atividade fundamental para a vida das pessoas: a alimentação, mantendo toda a equipa operacional activa e preparada, mas também fazendo todo um trabalho de backoffice não só com os clientes e parceiros de sempre, mas com novos, para o momento seguinte à Covid.
Aliás, prova disto foi que na semana antes do 1º confinamento em março de 2020, estivemos na SISAB em Lisboa onde realizamos diversas reuniões, visitas e reuniões, algumas que se vieram a demonstrar bastante frutíferas.
Estivemos desde a primeira hora com a ACPA ao lado da FPA, Lotaçor e do Governo dos Açores, participando em todos os trabalhos das reuniões semanais (e em alguns casos 3 vezes na mesma semana) do gabinete de crise para a pandemia para o Pescado dos Açores.

A matéria-prima com que trabalham é o peixe fresco. Como conseguem manter ao longo de todo o ano as quantidades de peixe necessárias para satisfazerem as necessidades dos vossos clientes?
Este, a par da logística, é o maior desafio. Mais peixe houvesse mais peixe se vendia. E para haver mais peixe, de forma responsável do que está disponível no mar, há 2 factores importantes: Haver boas condições climatéricas para os barcos saírem para o mar; Vontade de irem para a pesca quando está bom tempo.
 Foi o que sentimos em 2020.
Temos tentado avançar para contratos de abastecimento directo, não por questões de garantir pescado, mas essencialmente por questões de garantir que somos fornecidos.

Quais são os mercados com que a Azorfisk trabalha?
A Azorfisk está presente nos mercados com a seguinte distribuição: em Portugal Continental (75%), nos Açores (5%), nos EUA e Canadá (10%) e em Espanha (10%).
Estes resultados podem variar alguns pontos percentuais conforme a comercialização de espécies em específico para aqueles mercados.

Que técnicas usa a Azorfisk para que o peixe capturado na Região tenha a qualidade superior que é exigida pelos vossos clientes?
Claramente que este processo de excelência inicia-se no “escolher bem os barcos a quem compramos o peixe em lota”. Assim que o peixe sai da água no mar, começa uma contagem decrescente relativamente à perda de qualidade. Portanto, o segredo está em tentar comprar o peixe dos barcos que melhor fazem o seu trabalho no mar e a caminho de terra.
A 2ª técnica é ter os olhos bem abertos na recepção do pescado no cais das lotas após o leilão, pois é o último momento em que podemos devolver o peixe que está mal classificado, calibrado e tratado pelo armador quando entrega para o leilão, pois ao contrário do que muitos possam pensar, não é a Lotaçor quem tem esta responsabilidade, mas sim o dono do peixe, ou seja, a embarcação que entrega o seu peixe para venda.
Para que este complexo circuito comercial funcione só é possível para nós, porque a Azorfisk tem nos seus quadros funcionários altamente experientes e conhecedores das especificidades locais.

Quais são os cuidados a ter no transporte da mercadoria de modo a garantir a necessária qualidade do peixe desde a origem até ao consumidor?
A par da destreza necessária no processo de compra, parte do sucesso deste circuito passa também pelo tratamento do pescado nas nossas instalações. Ou seja, uma nova boa triagem e classificação à entrada nas instalações da Azorfisk, acondicionar e embalar o melhor possível, manter a cadeia de frio imaculada, evitar “trambolhões” no manuseamento das caixas (transporte terrestre, transporte aéreo/marítimo e transporte terrestre) e cumprir à risca a regularidade e cumprimento de horários.
Em suma, além da destreza na compra, a logística assume cada vez mais um papel fulcral na qualidade do Peixe dos Açores.

A actividade da vossa empresa não se cinge à exportação de peixe, mas dedicam-se também à transformação e comercialização de produtos alimentares resultantes da pesca. É isso? Que produtos têm já no mercado? Como tem sido a receptividade dos consumidores?
Até 2020 a nossa atividade foi somente compra e venda de pescado, sem transformação.

Nesta conjuntura adversa para toda a economia, a Azorfisk tem tido quebras significativas na exportação? Que quantidade de peixe exporta a Azorfisk anualmente?
Primeiramente é necessário clarificar alguns aspetos que para muitos são tabus: há uma diferença entre exportação e expedição. Entende-se por exportação para fora da União Europeia. Expedição é para fora dos Açores. E vender nos Açores, é para nós mercado local.
A análise do impacto da Covid não se pode ver da forma como tem sido feita.
É preciso perceber e olhar para as particularidades do comércio de pescado para fazer uma análise série e isenta para melhor perceção de toda a cadeia de valor.
O comércio de pescado (a nível mundial) está estruturado da seguinte maneira:
Distribuição alimentar (maiores quantidade e preço baixo) vs canal HORECA (baixas quantidades e preços altos) e esta segmentação altera toda a concessão de negócio e respetivas análises de rentabilização e valor.
Para além da segmentação de canais de venda é necessário ainda esquematizar as espécies por grupos ou famílias: Por exemplo: 5 grandes grupos de tipos de pescado:
• Tunídeos (grandes pelágicos): cada um tem a sua especificidade espécie a espécie e país a país;
• Pequenos pelágicos: chicharro, cavalas, bogas, sardinhas, entre outros;
• Lulas: é um negócio esporádico e não regular;
• Pescado de fundo: generalidade dos peixes, onde a análise tem que ser feita espécie a espécie e calibre a calibre, pois há espécies (goraz, cherne, imperador, etc.) onde o preço tem uma variação ENORME face aos calibre que estamos a analisar.
• Outros: mariscos, algas
 Portanto, quando se fizer análises de dados, devemos utilizar as mais básicas regras técnicas da análise estatística e a primeira é que não se pode comparar “alhos com bugalhos”.
Posto isto, e com grande esforço da equipa Azorfisk, estamos em condições de afirmar que estamos “satisfeitos” com os resultados alcançados em 2020.

 No vosso portfólio de clientes alguns deles são do mercado nacional?
Sim. O mercado nacional assume um papel fundamental para a Azorfisk. A empresa tem parceiros tanto no mercado OFF TRADE onde os opera diretamente e através de armazenistas locais e onde estes fazem ainda a cobertura do restante mercado OFF TRADE e de HORECA. Sendo a Azorfisk um grossista no comércio de Pescado dos Açores, no nosso entender, este é o caminho para a verdadeira coesão territorial e presença do nosso produto nos vários pontos de comercialização.

Quais as espécies mais requisitadas pelos vossos clientes e as que mais exportam?
Mais do que falar em espécies exportadas e/ou requisitadas, é uma vez mais necessário perceber-se in loco o que está disponível e tentar encontrar soluções de quantidades e valor a apresentar. O pescado dos Açores é claramente muito apreciado e procurado, mas por vezes “esbarra” em vários condicionalismos logísticos e comerciais. Felizmente, e paulatinamente, temos encontrado “soluções comerciais” para o maior número de espécies dos Açores e com isto permite-nos aumentar o portefólio comercializado e não depender apenas das “mais requisitadas”.

A Azorfisk tem apostado na aquacultura. Como tem sido o desenvolvimento e a importância desse projecto para a empresa? Quais são as espécies piscícolas que são criadas na aquicultura? Essas espécies servem para depois repor os alguns stocks no mar?
A nossa aposta na Aquacultura foi, desde a primeira hora, em 2016, ao termos disponibilizado a Azorfisk para ser o parceiro logístico e de comercialização do pescado de Aquacultura.
O envolvimento da Azorfisk com a Aquacultura regional é o de ser parceiro de negócio na medida em que prestamos serviços logísticos.

No seu entender quais são as limitações que existem nos Açores que condicionam o investimento na aquacultura e que medidas deviam ser adoptadas para ultrapassar esse condicionamento?
Sendo a Azorfisk apenas parceiro logístico do projeto de aquacultura, não estamos em condições de responder a esta questão. No entanto, e enquanto empresa do comércio de Pescado dos Açores, vemos com bons olhos projetos que venham valorizar a fileira e atribuir alguma previsibilidade no abastecimento do mercado consumidor.

 Quais são as vossas expectativas quanto à evolução da economia em geral, e em particular nos Açores, para este ano de 2021?
O arranque do ano foi deveras difícil e as dificuldades irão manter-se mais uns valentes meses. Desde logo pela instabilidade das condições atmosféricas que há várias semanas assolam os Açores que levam à rotura da periodicidade no abastecimento nos mercados consumidores com todos os riscos inerentes a “estes desaparecimentos em venda”. Por outro lado, a instabilidade nos mercados devido à atual situação em que vivemos o que provoca ainda mais imprevisibilidade no comércio e abastecimento regular.
Em todo o caso, e fruto do trabalho que veio sendo realizado ao logo de 2020 e com a entrada de novos elementos para os quadros da empresa, estamos aptos para abraçar novos projetos d,esde que haja descargas em lota suficientes.

No seu entender, que mudanças sociais e económicas virão depois desta crise pandémica, que alterou o modo de viver e conviver das pessoas e das empresas, além dos riscos de colapso em que colocou várias actividades sobretudo o transporte aéreo, o turismo, a mobilidade em termos global?
A forma como vivíamos não vai ser a mesma, o que não é forçosamente mau.
Uma coisa que certamente vai acontecer é as pessoas passarem a dar valor a coisas mais importantes e a deixar de lado as supérfluas e nas importantes está o contacto com os familiares e os amigos.
As relações sociais vão sair reforçadas, porque as pessoas sentiram na pele o que se perde quando não há contato e o risco de um dia para o outro já não ser possível estar com alguém ou até ter-se tido a oportunidade de se despedir.
Isto é uma enorme oportunidade para áreas de actividade como a alimentar, pois os “convívios caseiros” vão aumentar.
Se há “animal” que tem uma enorme capacidade de adaptação ao meio que o envolve, é o Ser Humano.
Esta crise, tal como todas, afecta todos, mas também coloca a nu as organizações que não tinham uma estratégia e não estavam estruturadas/organizadas para o dia-a-dia, quanto mais para um embate duro e desafiante como estes. E vemos isto logo pela forma como lidaram logo no início com tudo.
Enquanto uns começaram imediatamente aos gritos por preço e rendimento, outros arregaçaram as mangas para trabalhar, agarrar o espadarte pelo bico (não ficava bem dizer o touro pelos cornos), procurar todas as formas para poderem continuar a trabalhar e abrir os olhos para descobrir toda e qualquer oportunidade de negócio, por mais pequena que fosse.
Claramente que estamos motivados e esperançosos no futuro e trabalhamos desde a primeira hora para preparar a “retoma possível.

Como empreendedor que mensagem pode deixar para quem investe nos Açores e sobretudo para quem aposta na economia do mar?
Ser empreendedor é duro, mas tal como tudo na vida, o que dá muito trabalho, também tem um potencial enorme de dar muito prazer.
A palavra é colaboração e cooperação, até entre concorrentes, porque só tornando um setor, uma atividade, uma Região mais forte, ela se torna apetecível.
A economia do mar nos Açores só terá um futuro risonho se cada um se preocupar em desenvolver-se e não estiver mais preocupado em quanto é que o outro ganha, incentivar os recursos dos outros a o abandonarem, como é que o outro faz para se imitar só por imitar e em destruir os outros para ficar sozinho.
Nunca nenhum vai ficar sozinho, pois no dia em que isto acontecer há uma entidade que não vai aceitar subjugar-se: O CONSUMIDOR.
A Fileira do Pescado dos Açores é um diamante em bruto com um potencial enorme, assim o queiram todos os seus membros deixar que seja lapidado.
Em suma, a Azorfisk continuará a pautar-se por valores sustentáveis e pela valorização integral da fileira e principalmente pela valorização do Peixe dos Açores.

Fonte: Correio dos Açores / CA

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