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Há esponjas no mar dos Açores anticancerígenas e corais antimaláricos mas não há condições para progredir nos estudos na Região

Há esponjas no mar dos Açores anticancerígenas e corais antimaláricos mas não há condições para progredir nos estudos na Região

A jovem investigadora açoriana Sílvia Patrícia Pena Lino defendeu “com grande brio” a sua tese de doutoramento no Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, no ramo das Ciências do Mar, especialidade de recursos marinhos.
A tese de Sílvia Lino foi mesmo aprovada “com Distinção e Louvor por Unanimidade” por um júri extremamente rigoroso que fez justiça ao trabalho a que a investigadora se tem dedicado “com tanta energia”.

Sílvia Pena Lino explica que a ideia da sua tese surgiu quando percebeu que “grande parte do material biológico que vinha como pesca acessória pelos pescadores, era rejeitado”.
Num estudo recente, explica, “calculou-se que, em cerca de metade dos lances de palangre, vinham esponjas, corais e outros animais. Sendo animais de grandes profundidades, mesmo quando devolvidos ao mar, têm pouca possibilidade de sobreviver. “E se estes animais tiverem uma utilidade?”, foi a questão principal que motivou o trabalho. Se a investigarmos, estaremos a valorizar este recurso biológico”, refere Sílvia Lino.
Dito e feito. A investigadora escolheu “as doenças que mais pessoas afectam mundialmente: cancro (nos países desenvolvidos e numa percentagem também bastante elevada a própria região dos Açores); malária (uma das doenças mais mortais nos países em desenvolvimento) e infecções bacterianas resistentes a medicamentos (um dos grandes problemas hospitalares)”.
Este foi o contexto geral para o trabalho. Ao mesmo tempo, explica, “e com uma mesma metodologia, foram avaliados animais de profundidade (recolhidos a mais de 200 metros) de 20 espécies diferentes recolhidos numa vasta área do mar, nos Açores.

 

Esponjas anticancerígenas e corais de água fria antimaláricos

Na sua tese de doutoramento, Sílvia Patrícia Pena Lino considera que a Região dos Açores apresenta “uma grande diversidade de comunidades faunísticas em ecossistemas marinhos de profundidade, com numa grande variedade de ‘hotspots’ no fundo do mar, tais como montes submarinos, encostas das ilhas e fontes hidrotermais”.
No entanto, salienta, “apesar desta enorme biodiversidade, os seus invertebrados marinhos de profundidade nunca foram bio prospectados enquanto produtos naturais marinhos funcionais. Esta tese teve como objectivo fazê-lo”.
A investigadora explica que foram extraídos lípidos de 20 espécies animais, num total de trinta e seis extractos brutos, subsequentemente testados ‘in vitro’ como antibacterianos, antimaláricos e anticancerígenos.
Da diversidade de animais de profundidade que incluiu corais, esponjas, ouriços e invertebrados das fontes hidrotermais, os resultados revelaram que “os extractos apresentam actividade para todos os ensaios biológicos testados, com as esponjas a apresentarem-se como os animais mais úteis como fonte de compostos naturais marinhos anticancerígenos e os corais de água fria, como antimaláricos”, sublinha a investigadora.
Realça que foi usada uma estratégia de fracionamento guiado pela bioactividade, nos extractos dos animais mais activos: as mega-esponjas Petrosia sp. e Leiodermatium sp.. Os esteróis (Petrosterol, Sitosterol e 23, 24- Dihydrocalysterol) “foram identificados nas fracções de Petrosia sp. mais anticancerígenas mas devido à perca de actividade durante a separação dos compostos, não foi possível confirmá-los como principais anticancerígenos presentes”.
O estudo com a esponja Leiodermatium sp. resultou “no isolamento de uma mistura complexa de compostos, demonstrando um potente efeito anticancerígeno (IC75=0,08 μg/ml). Os compostos foram identificados como pertencentes a uma mesma família de macrólidos e foram denominados “azorelides”. Foi possível isolar os compostos azorelide A e azorelide B mas a esteroquímica absoluta de ambas as moléculas não foi determinada devido às suas escassas quantidades (1,1 mg de azorelide A/ kg e 0,47 mg de azorelide B/kg de esponja Leiodermatium seca)”.
Sílvia Lino diz esperar agora “ter oportunidade de prosseguir com o trabalho mas, infelizmente, não houve condições para continuar na Região dos Açores devido à falta de oportunidades de trabalho”. Estas palavras da investigadora suscitam uma série de questões que, ao nível da Ciência, têm estado na vanguarda das preocupações da comunidade de cientistas açorianos e fazem parte das matérias que, em termos editoriais, mais o ‘Correio dos Açores’ tem trazido à opinião pública.

 

“Região compra equipamentos ultramodernos de milhões que estão parados por falta de quem os saiba manusear”

Correio dos Açores – Chegando o seu trabalho de investigação tão longe quanto possível nos Açores, o que se pode seguir, em termos de estudos práticos, para que os resultados a que chegou sejam úteis e entrem na cadeia de medicamentos anticancerígenos e antimalários?
Sílvia Patrício Pena Lino – Este trabalho pretende ser apenas um ponto de partida. Ou seja, queríamos perceber, em primeiro lugar, se havia potencial nestes animais diferentes dos seus semelhantes de baixa profundidade. Os resultados preliminares indicam que, de facto, estes animais apresentam compostos naturais anticancerígenos muito potentes. É preciso agora mais investigação, primeiro para perceber se estes compostos têm um efeito mortal para as células cancerígenas, sem afectar as saudáveis (se matam células cancerígenas e saudáveis indiscriminadamente, deixam de ter interesse).
Depois, é importante descrever quimicamente as moléculas activas para que outros grupos possam investigar a possibilidade de as produzir (seja de forma química, biológica ou num processo misto). Para isso, temos de isolar mais compostos activos… O que só por si se revelou uma dificuldade já que a mesma espécie de esponja (por exemplo), umas vezes tinha compostos activos e outra não. O que é que faz com que, por vezes, os produzam e outras não? Temos de entender melhor o ciclo de vida destes animais e aprender a identificá-los toxonomicamente correctamente.
É fundamental que as pessoas percebam que não é possível sequer considerar-se uma formulação para medicamentos sem um investimento grande na sua investigação, com grupos inteiros de várias áreas empenhadas nesse objectivo a trabalhar durante anos. Um dos medicamentos mais antigos usados no tratamento da leucemia, foi isolado de uma esponja marinha (Ara-C) nos Estados Unidos e só 30 anos depois estava disponível no mercado. Antes de poderem ser comercializados com os compostos activos, mandam as legislações que seja comprovada a sua eficácia e segurança humana, o que significa passarem por uma bactéria grande de testes, com várias fases. O investimento é tão grande que é muito raro o caso em que as farmacêuticas estão dispostas a fazê-lo. Daí a importância da investigação pública em ciência que, infelizmente, é cada vez mais escassa.

Correio dos Açores – Que condições precisaria nos Açores para prosseguir o seu trabalho?
Sílvia Patrício Pena Lino – Em primeiro lugar, vontade política para ser investida em Ciência, o que não tem acontecido ao longo dos últimos anos: em contratos de trabalho para cientistas. Se todos entendemos que a ciência é fundamental para o desenvolvimento da Região, então porque é que continuam a tratar os cientistas mais novos como descartáveis, com bolsas sem condições de estabilidade pessoal.
É uma ingenuidade muito grande pensar que é com bolsas de 3 meses ou mesmo com as de 2 anos que vamos conseguir chegar lá. A própria Ciência é um exercício constante de resistência à frustração pois são mais os becos sem saída do que as respostas que obtemos. Se, para além disso, não há alternativas a esta precariedade laboral constante, o resultado é haver cada vez mais gente, ou a desistir da ciência ou a emigrar.
Investir em ciência não é comprar equipamentos de milhões de euros, sem depois sequer tentarem perceber se alguma coisa foi feita com eles. Infelizmente, o caso de equipamentos ultramodernos que custaram muitíssimo à região, parados por falta de alguém com capacidades técnicas para o manusear, são bastantes. Quando há pouca verba para ser investida em ciência, é fundamental ser-se prático para que não seja um desperdício.

Correio dos Açores – Não se poderia criar uma empresa ‘start up’ para desenvolver, na prática, o que provou nos estudos?
Sílvia Patrício Pena Lino – Claro. Mas quem é que quer fazer esse investimento…?

 

“O que me deixa mais triste é que tudo o que aprendi fora podia aplicar nos Açores…”

Correio dos Açores – Não havendo condições nos Açores, corre o risco de ser mais um emigrante de luxo, que adquire o Conhecimento na Região e aplica-o fora do arquipélago?
Sílvia Patrício Pena Lino – Em primeiro lugar, o investimento não foi pela Região, mas pelo país. A bolsa que recebi para poder fazer o trabalho foi de mérito (para a qual foram avaliados o projecto, as condições para o concretizar, o meu currículo e o dos meus orientadores), atribuída pela Fundação para a Ciência e Tecnologia, com verba do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior. O conhecimento, fui busca-lo fora: para aprender técnicas e interpretar resultados estive no SCRIPPS, nos Estados Unidos; na MARUM, na Alemanha e em vários institutos em Lisboa. Dos Açores, são os animais mas as espécies mais interessantes existem em todo o mundo.
Quanto a aplicar o conhecimento que adquiri nestes últimos anos, nada me deixa mais triste do que perceber que tudo o que aprendi fora e poderia aplicar nos Açores e passar a mais investigadores, não deixa de ser uma miragem sem possibilidades de o concretizar na conjuntura actual. Como toda a gente, também tenho uma família que preciso cuidar e por mais que seja nobre a causa, não posso trabalhar de graça porque também eu preciso de comer, vestir e ter um tecto sobre a minha cabeça…

Correio dos Açores – Tem algo mais a acrescentar?
Sílvia Patrício Pena Lino – Sim. Gostaria de frisar que este trabalho envolveu a cooperação de muitos institutos, de muitas áreas diferentes. Sem esta vontade de participar por um bem que é comum a todos como a descoberta de alguma coisa importante para a ciência, não teria sido possível. Não se pode começar pelo fim. O conhecimento vale por si próprio e só isso deve ser visto como digno de investimento, não patentes e medicamentos que se vendem para “ganhar dinheiro”.

Fotografia: ©ImagDOP/UAz

Fonte: João Paz / Correio dos Açores

 

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