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Ilha de São Jorge // «O Topo vivia à base da baleação»

Ilha de São Jorge // «O Topo vivia à base da baleação»

No Topo, a Associação local Cachalote reabilitou um bote de caça à baleia e luta pela criação de um núcleo museológico. Enquanto um grupo de homens veleja no bote São José em direcção ao ilhéu do Topo, dois ex-baleeiros, Augusto Correia e Eduardo Borba, recordam os tempos da caça à baleia. «Só se pagava o fiado quando se recebia da baleação».

Porto do Topo, Ilha de São Jorge. Um fim de tarde benigno permite a um grupo de homens jovens sair para o mar da ponta leste da ilha com o São José, um bote baleeiro que é uma réplica de um antigo que acabou soterrado ali perto. A Associação Cachalote, associação de defesa do património do Topo, restaurou-o e pretende agora criar na freguesia um núcleo museológico.

O bote São José evolui ao sabor das ondas do fim da ilha, o ilhéu do Topo ao fundo. Os homens saem com ele para praticar, como desporto e se prepararem para regatas de botes baleeiros. Lá em cima, sentados no muro do porto, estão dois dos oito ex-baleeiros do Topo ainda vivos. Assistem às manobras de longe e indicam onde tudo se passava no seu tempo.

«Ali ao fundo eram as caldeiras onde se derretia o óleo. Onde está agora o bar», afirma Augusto Correia, 82 anos. «Depois o tanque onde se guardava tudo era lá em cima, não me pergunte porquê. Acartávamos ‘bidons’ de 200 litros cheios de óleo até lá acima, à espera que viesse o barco buscar. Eram vários, o “Furnas”, o “Girão”. Quando chegavam, tínhamos de carregar tudo para baixo outra vez».

A baleação no Topo acabou em 1965. «Chegaram a ser arreados três botes aqui no porto do Topo», conta Eduardo Borba, outro ex-baleeiro. «Por fim havia só um, o Maria Deolinda. Eu arreei com 16 anos, a fugir ao cabo do mar. Íamos para o mar do Pico, para o norte da Terceira, para onde elas andavam».

O Topo era então uma freguesia muito pobre. A caça à baleia atraía todo o tipo de pessoas e o que se ganhava vinha ajudar a sobreviver.

«Ninguém trabalhava só na baleação. Vínhamos para aqui às 8h00 da manhã todos os dias para que se houvesse baleia sair-mos mos depressa. Se não aparecia baleia, cada um ia à sua vida, uns iam amanhar a terra, outros trabalhar de carpinteiros», conta Borba.

O pai de Augusto Correia, por exemplo, era oleiro, um oleiro micaelense que um dia assentou arraiais no Topo.

«Era de Vila Franca do Campo. Um primo dele arreou à baleia. Tinha 11 filhos. Para sustentar famílias dessas era preciso trabalhar em tudo o que aparecesse. Muitas das famílias do Topo viviam da baleia».

A mercearia fiava às famílias dos baleeiros. «Só se pagava quando se recebia. Em dois anos, ganhei três mil escudos. A minha mãe foi à loja pagar. Quando regressou a casa, vinha toda contente com uma nota de mil escudos na mão, daquelas da Dona Maria e um quilo de açúcar. Até os olhos brilhavam: “A vossa mãe pagou tudo o que estava a dever e o senhor ainda me ofereceu um quilo de açúcar”. Respondi-lhe eu: “Mãe, esse quilo está pago há muito”».

Fonte: Café Portugal

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