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Lisboa – Uma viagem ao mundo das pescas

Lisboa – Uma viagem ao mundo das pescas

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Redes, armadilhas, anzóis, godos, linhas são termos que fazem parte do quotidiano dos pescadores. A sua arte envolve diversos utensílios e um profundo conhecimento do mar. O Museu Nacional de Etnologia propõe uma viagem ao mundo piscatório na exposição «Artes de Pesca». Para visitar até 2015.

A faina no mar começa bem cedo. A companha junta-se e prepara a embarcação. Cada pescador traz consigo a lancheira. O almoço será feito a bordo. Repetem-se gestos. É assim todos os dias. Soltam-se amarras e parte-se mar adentro em busca de bons cardumes de peixe. A vida de pescador «é dura e perigosa», diz quem vai ao mar e quem fica em terra a aguardar por familiares e amigos.

Por outro lado, o que tem de perigosa, tem de fascinante. Um mundo confinado ao pequeno espaço da embarcação requer camaradagem e muita estratégia para atingir objectivos e na hora da pesca não tropeçarem uns nos outros. Cada um tem a sua função e nada pode falhar. Toda a faina decorre sob as ordens do mestre.

O mundo da pesca há muito que conquistou Luís Martins, antropólogo que tem dedicado grande parte da sua vida a acompanhar pescadores para conhecer a profissão, hábitos e costumes. A investigação reflecte-se agora na exposição «Artes de Pesca: Pescadores, Práticas, Objectos Instáveis», patente no Museu Nacional de Etnologia, em Lisboa.

Os artefactos expostos (perto de 200), assim como vídeos e fotografias, resultam da investigação de Luís Martins e articulam-se com a colecção do museu datada de 1960. A mostra permite uma viagem ao mundo da pesca, revelando os diferentes métodos para capturar o peixe e o marisco.

A exposição tem ainda uma cenografia de Manuela Jardim que esculpiu, com redes de pesca, vários peixes da costa portuguesa como a sardinha, carapau, tainha, robalo e pescada.

A apanha é a primeira das artes em mostra nesta exposição. Praticada ao longo de toda a costa portuguesa, a apanha é essencialmente uma arte individual. Mesmo quando há um grupo de pescadores, estão a fazer a apanha sozinhos recorrendo às suas mãos e, por vezes, com auxílio de alguns utensílios. Em Sines, usam a arrelhada, que relembra uma pá para colocar o pão no forno, para apanhar percebes nas rochas. No lamacento piso das margens do rio Sado, Setúbal, em períodos de maré baixa, usam-se as patolas para caminhar e assim apanhar ostras. As patolas são um pedaço rectangular de madeira, normalmente de pinho, e no meio coloca-se um pedaço de couro em arco que vai segurar o pé. Estes são apenas alguns do exemplos para conhecer das artes da apanha, alguns deles ilegais.

Enquanto nos debruçamos sobre os objectos, na parede vão surgindo rostos a preto e branco de homens, algumas mulheres, e mesmo crianças. A fotografia passou a ser obrigatória nos registos de inscrição marítima no início do XX e algumas capitanias marítimas nacionais cederam as imagens para a exposição. Luís Martins analisou essas inscrições e houve um elemento que lhe despertou a atenção. É obrigatório justificar a renovação da inscrição e verifica-se que «muitas vezes o motivo é por perda no mar da cédula, porque simplesmente se estragou ou porque se perdeu num naufrágio. E é curioso verificar que há indivíduos que sofreram muitos naufrágios. Vão de naufrágio em naufrágio até não voltar a existir renovação da cédula», comenta.

O anzol é um dos utensílios mais antigos utilizados na pesca e existe numa grande variedade de formas que se prende com as diferentes espécies capturadas e materiais disponíveis. O anzol pode ter um isco ou ser usado sem esse «atractivo» para o peixe. O uso do anzol vai muito além da típica imagem do pescador sentado à beira da água com a cana esticada ao mar à espera que «o bicho morda o isco». O anzol é utilizado também de forma intensiva. O palangre é o aparelho que melhor caracteriza o uso intensivo do anzol. O anzol tem uma linha que se liga a outra mais forte, a madre, e que, uma vez encontrado peixe, é lançado ao mar de forma metódica. Luís Martins explica que «a largada de um palangre é sempre efectuada pela popa de uma embarcação, com a corrente a seu favor».

Ao fundo da sala está um conjunto de covos ou murejonas. São armadilhas de gaiola que servem para apanhar polvos, enguias, lagostas. As armadilhas eram feitas de vime, junco, madeira. A função hoje em dia continua a ser a mesma, mas os materiais são outros. As murejonas mais comuns actualmente são feitas de ferro, revestidas de uma rede plástica ou grade de arame e corda.

Além armadilhas de gaiola, os pescadores utilizam armadilhas de estrutura flexível que são mais frágeis do que as armadilhas de gaiola e, por isso, são utilizadas em águas interiores. Estas armadilhas são conhecidas como botirão, usado no rio Minho, para pesca de salmão, escalo, boga, sável, lampreia; nassa e galricho são usadas, por exemplo, em Alhandra, Vila Franca de Xira, para pesca do camarão e enguia.

Enquanto passeamos entre redes, armadilhas, anzóis, de fundo há sempre a voz de um pescador. O som sai de um dos vários vídeos que são projectados nesta mostra e que mostram as diferentes artes que existem no país. Os objectos expostos ganham vidam nas imagens exibidas. Alguns dos filmes foram filmados por Luís Martins no decorrer da sua investigação.

Entre as diferentes artes há ainda a tracção com e sem arrasto. Na primeira, utensílios como ganchorra, ou ancinho, e rede de arrasto de vara «varrem» o fundo e tentam captar berbigão, conquilha e outros molúsculos. Na tracção sem arrasto existem essencialmente redes que não revolvem os fundos e captam os peixes que frequentam a meia água. Nesta arte, existe, por exemplo, a mugiganga, para a pesca de peixes do rio e estuário, como a solha.

No que às artes de pesca diz respeito, a exposição mostra ainda as redes de enredar que são constituídas por três panos de rede sobrepostos, por isso, normalmente são designadas por tresmalhos. Os pescadores podem também utilizar as redes de emalhar que são de um só pano. Estas redes têm na parte superior a tralha das bóias ou dos flutuadores, e a tralha dos chumbos ou lastros na parte inferior. Com redes de emalhar é possível pescar à superfície ou próximo do fundo, dependendo da espécies que se quer capturar.

Luís Martins adianta que as terminologias utilizadas pelos pescadores varia muito de região para região e há termos para classificar diversos aspectos do mar, como os fundos. «Quando o fundo é de pedra direita é designado por laje. Se for uma pequena pedra é um rato. Se for o resto de um naufrágio é um casco e são, normalmente, bons locais de pesca porque se tornam com os anos bons viveiros. Se for areia fina é um fundo limpo. Um fundo de lodo, é lodo. Mas se o fundo tiver calhaus, pequenas pedras, então são godos. O fundo está cheio de nomes», explica o antropólogo.

No centro desta exposição está a cabine de uma embarcação típica do Norte do país. Um espaço pequeno destinado ao mestre. O local onde todas as decisões se tomam. Flutuadores, lastros e outros utensílios expostos acrescentam pormenores às artes da pesca que aqui se descobrem.

Na despedida, tempo para observar um desenho, «neste caso uma efabulação porque é mais ou menos assim que se desenhava o mar». Um pescador desenhou a costa da Arrábida que retrata como eles conheciam e traçavam o mar. «Representam-se as artes da pesca da costa da Arrábida», diz o antropólogo. O cerco à sardinha, as redes, os covos, os barcos, os fundos, tudo anotado em papel. «Eram referências para ajudar à navegação», conclui Luís Martins.

A exposição «Artes de Pesca: Pescadores, Práticas, Objectos Instáveis» inaugurou a 3 de Abril de 2014 e ficará patente por um ano no Museu de Etnologia, em Lisboa.

Fonte: Café Portugal

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