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“Os Açores são um laboratório vivo” – Rick Rosenthal

“Os Açores são um laboratório vivo” – Rick Rosenthal

O americano Rick Rosenthal é biólogo e, simultaneamente, produtor consagrado de documentários sobre a vida marinha, tendo vencido já dois Emmy’s, um dos quais em 2010.

Foi um dos responsáveis pelas filmagens da série Blue Planet e do filme Deep Blue, bem como pela série de sucesso Planet Earth e pelo filme Earth, da Disney. Alguns dos seus filmes sobre baleias foram difundidos por todo o mundo pela BBC e pelo Discovery Channel. Contribuiu também para a série Great Migrations, da National Geographic, e para a série Life, produzida pela BBC em associação com o Discovery Channel. Actualmente está a filmar um trabalho sobre os atuns do Pacífico e do Atlântico, e passou pelos Açores, o seu local de eleição em todo o mundo para filmar. Tribuna das Ilhas esteve à conversa com o cineasta, que apelou à necessidade dos açorianos preservarem com unhas e dentes este “laboratório vivo”, com águas límpidas que começam a escassear no resto do mundo, e com uma biodiversidade surpreendente.

Quando foi para a Universidade, para ser biólogo marinho, Rick nunca imaginou que um dia iria ser realizador e trabalhar com câmaras. No entanto, ao perceber que a investigação não despertava interesse no grande público, decidiu tentar outra abordagem. Em 1984, iniciou uma parceria de sucesso com a Unidade de História Natural da BBC. “Eles tinham começado a produzir alguns dos melhores programas sobre vida selvagem. Pude estar envolvido em algumas das suas séries principais, e produzi três filmes sobre baleias”, recorda. Foi precisamente o trabalho sobre baleias que o trouxe pela primeira vez aos Açores, em 1995. Rick lembra essa primeira passagem pelo arquipélago como se tivesse sido ontem: “tínhamos um barco à vela histórico, que trouxemos de Inglaterra, e trabalhámos com o Dr. Jonathan Gordon, pioneiro na pesquisa sobre cachalotes nas ilhas. Não conseguíamos encontrar os cachalotes perto do Faial e do Pico, e então fomos para São Miguel. As baleias estavam lá! Inacreditável! Encontrámos famílias inteiras, houve alturas em que havia 50 baleias!”, recorda.

Rick Rosenthal já mergulhou e filmou um pouco por todo o mundo. No entanto, continua a voltar aos Açores. “É um lugar mágico”, justifica. 

A imprevisibilidade do mar dos Açores prega por vezes partidas aos produtores de documentários. A biodiversidade marinha açoriana é particularmente rica e especial e, quiçá por essas razões, pode ser bastante caprichosa, ao jeito das actrizes com tiques de prima donna, e obriga os cineastas a esperarem por vezes durante semanas, para avistarem a espécie que procuram. A espera é difícil de suportar, até em termos financeiros, mas Rick assegura que vale sempre a pena. “É como se o oceano nos dissesse: ‘se tiverem o tempo e a paciência, e as câmaras prontas, nós vamos mostrar-vos qualquer coisa muito especial’”, refere.

“Preservem o vosso laboratório vivo”

Os seus mergulhos um pouco por todo o mundo fazem com que Rick tenha o conhecimento para afirmar com convicção que “os oceanos estão em dificuldades em todo o lado”. No entanto, entende que os Açores ainda são uma excepção. “Aqui vocês têm um laboratório vivo, longe das costas dos continentes. É uma oportunidade para os cientistas estudarem algo que ainda está num estado saudável”, frisa. 

O mar dos Açores é, cada vez mais, um produto turístico de importância ímpar para a economia das ilhas. Filmes como os que Rick produz, que mostram imagens surpreendentes da intensa vida que povoa estas águas, são um chamariz para os turistas. No entanto, o ponto de equilíbrio entre rentabilidade e sustentabilidade é difícil de determinar, o que pode representar um perigo, como reconhece Rick. “O equilíbrio entre o turismo e a ecologia e os ecossistemas é muito difícil. Encontrá-lo vai ser uma tarefa árdua, e os especialistas, bem como os habitantes locais, vão ter de pensar em soluções”.

O biólogo reconhece que os euros dos turistas são ainda mais importante numa altura de crise como a actual, no entanto alerta para a importância da Região ponderar bem o tipo de turismo que pretende praticar. Para Rick, esse turismo passará pela qualidade e não pela quantidade.

“Há imagens filmadas nos Açores que ficaram marcadas na minha memória”

Rick já filmou milhares de imagens por todo o mundo, muitas delas únicas e espectaculares. Nos Açores, reconhece que há planos que filmou que nunca esqueceu nem irá esquecer. Ao Tribuna das Ilhas, o cineasta dá apenas alguns exemplos: “uma vez, em São Miguel, filmámos um cachalote bebé branco. Uma Moby Dick bebé! Nunca tinha sido vista, e filmámo-la junto à mãe, com o grupo. Filmámos debaixo de água, mas também à superfície. Ela veio até ao nosso barco a remos (não tínhamos motor) e colocou a sua cara mesmo à frente da câmara. Foi impressionante”, recorda. 

“Tirar o atum da lata”

Foram os rabilhos que trouxeram o cineasta de volta aos Açores este ano. Rick está a filmar um documentário intitulado Hot Tunas – o que traduzido à letra significa “atuns quentes”. A tradução literal serve para explicar a pertinência do título: é que, segundo explica Rick, “os atuns são animais de sangue quente, como o nosso”. Neste documentário, co-produzido pela National Geographic e por estações do Japão, da Alemanha e da França, entre outros países, Rick explica que o que se pretende é fazer uma comparação entre três espécies de atum: “o gaiado (skipjack tuna), que é muito capturado aqui, a albacora (yellowfin tuna), que é provavelmente o peixe mais importante para a alimentação a nível mundial, e o rabilho (bluefin tuna). Estamos a estudar a sua biologia, a sua história natural… Em suma, o que estamos a fazer é ‘tirar o atum da lata’, por assim dizer”.

Quando recebeu um e-mail de um amigo a dizer que os rabilhos estavam nos Açores, Rick e a sua equipa vieram de armas e bagagens para o arquipélago: “Fomos para São Miguel, mas quando chegámos eles tinham desaparecido. Viemos para o Faial, e vimos alguns atuns, mas não os grandes rabilhos. Então esperámos. Depois, disseram-nos que eles estariam mais ao largo, metemo-nos num barco e fomos em direcção a eles. Durante dois dias estivemos a filmá-los na natureza, a vê-los a alimentarem-se… É muito especial”, conta. 

Fonte: Tribuna das Ilhas

1 Comentário neste artigo

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    Jorge Gonçalves

    Deixo aqui um desafio muito utópico, mas não será demais solicitar ao Srº. Rick, se é que podemos expirar a tal, para que quando tiver o trabalho pronto, faça a apresentação dele aqui nos Açores, julgo que todos nós teríamos muito a ganhar com a apresentação deste trabalho aqui nos Açores, para não falar no impacto que teria para todos nós. Vamos solicitar e demonstrar a nossa vontade ao Srº. Rick Rosenthal.

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