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Peixe de valor comercial desapreceu das águas açorianas e o que chega à lota não é vendido na Região mas vai todo para a exportação

Peixe de valor comercial desapreceu das águas açorianas e o que chega à lota não é vendido na Região mas vai todo para a exportação

A frota regional é caraterizada pela existência de cerca de 602 embarcações licenciadas a operar no Mar dos Açores e cerca de 80% dessas embarcações têm menos de 12 metros de comprimento fora-a-fora, o que faz com que se pesque tradicionalmente nos bancos de pesca ou nos montes submarinos mais próximos das costas das ilhas, com aparelhos de linhas e anzóis, efetuando a faina com durações não superiores a 1 – 2 dias. Emanuel Peixoto é dono da embarcação “Mestre Peixoto” e anda na arte de palangre de fundo. Todos os dias vai ao mar mas o peixe de valor comercial desapareceu das águas açorianas…

“Eu ando sempre atrás do dinheiro, vou descobrir peixe lá fora para poder fazer dinheiro. Eu vou sempre atrás dele. Quando encontro um cardume nunca mais o largo. Saio de amanhã e à noite, é como se fosse uma mina, porque se não for eu outro vá fazê-lo”. É assim que Emanuel Peixoto, de 41 anos, pescador desde os 14 anos, consegue lutar contra as dificuldades que a pesca atravessa. Este dono da embarcação do “Mestre Peixoto” não é dos que mais se queixam “porque aqui (no barco) trabalhamos muito. Não há horas, dia ou noite ou feriados, quando é preciso sair para a pesca saímos. Tenho 15 homens a meu cargo mas nenhum deles quer ir para o Fundo de Desemprego porque há sempre a esperança de que a situação vai melhorar. Pretendem deixar de ter algum dinheiro fixo por mês porque sabem que lutamos todos os dias por uma vida melhor”.
O proprietário do barco de palangre de fundo diz que felizmente “tenho a embarcação paga por isso estou mais desafogado mas há pessoas que têm investimentos avultados e o rendimento é pouco para pagar todas as despesas”. A somar a isso há também o facto de as quotas limitarem a pescaria. “As espécies de grande valor são aquele que dão dinheiro, como é o caso de alfocim, goraz, mas não há alternativas, porque nestes dois meses que faltam para fechar o período de Verão não vai haver peixe de grande valor. Nos nossos mares não há cherne, não há abrótea, não há imperador, não há boca-negra. Coloco à água todos os dias 7 mil anzóis e a semana passada apanhei apenas 5 quilos de imperador, embora apanhe peixe de menor valor comercial. Mas o que é bom para rentabilizar são as espécies de valor acrescentado. Consegui vender nos meses bons deste ano goraz com uma média entre 20 a 26 euros o quilo, só que este peixe vai todo para exportação, principalmente para Espanha. Este pescado não fica à venda nas ilhas”.

 

Filho de pescador ainda tem esperança no sector

Emanuel Peixoto que conhece bem o mar, assim como os seus irmãos, porque nasceu numa família de pescadores e desde criança que o mar é como se fosse a sua casa. No respeita ao peixe de palangre de fundo garante que “todos os anos por esta altura, quando as águas começam a aquecer é muito complicado. As águas aquecem e os peixes afastam-se. Quando chegar a Outubro é que o peixe volta ao recife. Temos tido grandes alterações ao nível atmosférico mas também ao nível marítimo que é importante conhecer”.
Para além disso, na arte de palangre de fundo Emanuel Peixoto é de opinião de existem muitos barcos a trabalhar. “os barcos não trabalham todos os dias porque há expectiva de haver cardumes de bonitos para que todos se pudessem safar, grandes e pequenos, como aconteceu há sete anos atrás, mas depois desta altura não houve grandes melhorias”, refere, ideia partilhada com o pescador João Medeiros, que trabalha na pesca há quatro anos, depois da construção civil ter deixado de dar rendimento.
Mesmo não sendo uma vida difícil, Emanuel Peixoto gostava que o filho, ainda criança, continuasse com a sua arte, mas o menino depressa diz que “gostava de ser jogador de futebol” mas a mãe, segundo o pai, “quer que ele estude e vá para doutor, pois não quer que o filho seja pescador”
A terminar a nossa conversa, no porto dos Carneiros, na Lagoa, Emanuel Peixoto erfere que o preço do gasóleo em baixo também permite que haja um melhor equílibrio nas contas. “Tenho um contabilista, pago os meus impostos, mas não concordo que quem tem barcos de recreio possa vender o seu pescado nos restaurantes. Tiram a gravata, ganham dinheiro e prejudicam o pescador que vive desta profissão”, desabafa, rematando”deviam poder apanhar apenas para consumo”.

De acordo com o documento “Consulta sobre as possibilidades de pesca para 2016” verifica-se que o sector das pescas é responsável por uma actividade económica que abrange cerca de sete centenas e meia de empresas, que geram riqueza e proporcionam rendimentos a mais de quatro mil famílias, tendo ainda um impacto social bastante significativo e promovendo o desenvolvimento das zonas costeiras. Importa ainda referir que estas são maioritariamente pequenas e médias empresas, o que reforça a sua importância socioeconómica”
Este sector, de acordo com o documento, “ contribui atualmente, assim, com mais de 20% para o total das exportações da Região Autónoma dos Açores, sendo a catividade com maior impacto nos recursos marinhos e o garante da coesão territorial de dezenas de pequenas comunidades piscatórias distribuídas nas nove ilhas dos Açores” A avaliação do equilíbrio entre a capacidade e as possibilidades de pesca na frota nacional – feita com base em diretrizes enviadas por Bruxelas – mostra que esta “pode operar de um modo sustentável, quer do ponto de vista biológico, quer do económico”. Os pescadores que trazem benefícios sociais e económicos às comunidades locais sem danificar o ecossistema marinho devem ter mais oportunidades de pescar que os outros, de acordo com um estudo do Institute for European Environmental Policy (IEEP), uma entidade europeia independente. A frota de pesca opera num regime biológica e economicamente sustentável, segundo um relatório divulgado pela Comissão Europeia.
Importa referir que os dados recolhidos pelo executivo açoriano no documento acima citado revela que “nos Açores, mais de 90% do pescado descarregado em lota é produto de uma pesca artesanal, desenvolvida com respeito pelos valores naturais e pela preservação dos recursos. Por isso, a estratégia marinha prosseguida pelas autoridades regionais dos Açores em conjunto com os parceiros do sector, no âmbito da exploração dos recursos haliêuticos, integra sempre os princípios do desenvolvimento sustentável, da proteção do ambiente marinho e da pesca racional e responsável. Uma forte parceria com a Universidade dos Açores, em particular através do DOP, reforça também a atenção da Região quanto à protecção e monitorização das espécies piscícolas do mar dos Açores.  O projecto “Valorizar o mar dos Açores”, em Ponta Delgada, pretende promover as espécies de pescado sem grande valor comercial em lota, contribuindo para uma pesca mais sustentável e o aumento dos rendimentos dos pescadores. De acordo com o programa do governo nesta legislatura “a Região Autónoma dos Açores contínua a apostar na investigação científica e a reforçar mesmo esse apoio de modo a que se possa intensificar o conhecimento da situação dos recursos pesqueiros no Mar dos Açores”.

Fonte: Correio dos Açores

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