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Pescadores da Noruega preocupados com a crise em Portugal

Pescadores da Noruega preocupados com a crise em Portugal

A mais de quatro mil quilómetros de distância, nas remotas ilhas Lofoten, o estado da economia portuguesa preocupa simples pescadores noruegueses, afetados pela perda de poder de compra do principal importador de bacalhau norueguês.
 

“Antes do Natal, o preço do quilo baixou de 15 coroas (dois euros) para menos de 10 coroas (1,33 euros) coroas, disseram-nos que era por causa da crise na Europa”, conta Karl Johnsen, ao leme da traineira Gisloyvaering. Embora não esteja a par dos pormenores da situação financeira ou política, nem nunca tenha visitado o país, este quinquagenário sabe que é para Portugal que vai grande parte do bacalhau que pesca, onde é consumido sobretudo salgado.

Segundo o Conselho Norueguês das Pescas (CNP), em 2012, a Noruega exportou para Portugal 42.445 toneladas de bacalhau, equivalente a 211 milhões de euros, menos 15% do que as 47.511 toneladas do ano anterior, correspondentes a 248 milhões de euros. A redução dos preços nos portos concluída em dezembro foi o resultado de negociações entre associações de pescadores e representantes da indústria de processamento. A principal razão apontada foi o aumento da quota de pesca do bacalhau da Noruega em cerca de 30%, para um valor recorde de um milhão de toneladas, graças à boa condição dos ‘stocks’ no mar de Barents. Porém, as dificuldades nos mercados europeus foram invocadas tanto por pescadores como pela indústria alimentar para justificar a decisão. “A quebra de preço na origem tem que ver com o crescimento da quota de pesca nos últimos anos. Há seis anos a quota de pesca norueguesa era de 260 mil toneladas. Este ano é de 480 mil toneladas. Como se pode perceber quando a quota duplica, o preço cai para metade”, justificou Christian Nordahl, representante do CNP em Portugal.

A descida dos preços veio agravar o declínio da atividade, que ainda é maioritariamente feita de forma tradicional ao largo das ilhas Lofoten, à rede ou à linha. “Um dos meus irmãos vendeu o barco, foi trabalhar para a indústria do petróleo. Trabalha um mês e descansa outro, e ganha mais dinheiro”, revelou o pescador à agência Lusa. Bernt-Andreas Johnsen, de 43 anos, que partilha a traineira com o irmão mais velho, também se queixa: “Por causa dos problemas financeiros na Europa, precisamos de pescar mais para ganhar o mesmo dinheiro”. Ao mesmo tempo, professa um amor à profissão que corre nas veias da família há várias gerações. Os dois irmãos trabalham intensivamente durante a época do “skrei”, entre 01 de janeiro e 30 de abril, bacalhau que migra na fase da desova e que pode ser encontrado no mar da Noruega, ao largo das ilhas Lofoten. Saem diariamente às 04:30 horas e só regressam depois das 12:00 horas, enfrentando temperaturas negativas, a neve e a escuridão do inverno ártico. Num dia bom, podem apanhar nas redes nove mil quilos de bacalhau, mas há outros em que se ficam pelas centenas de quilos. Se não conseguirem esgotar a quota de 225 toneladas que possuem, terão de viajar mais longe, até ao mar de Barents. É naquelas águas que se concentram os maiores ‘stocks’ de bacalhau, mas onde há também maior concorrência, incluindo de barcos portugueses.

Nos próximos anos é possível que a quota de pesca de bacalhau regrida, o que poderá fazer o preço aumentar novamente. Os irmãos Johnsen esperam que, entretanto, a situação na Europa melhore, e Bernt-Andreas faz “figas” para que Portugal encontre petróleo, o mesmo recurso que tornou a Noruega um dos países mais ricos do mundo. “Nós já temos muito, faz mais falta a Portugal”, garante o pescador, que desabafa: “Espero sinceramente que Portugal recupere”.

Fonte: AçorianoOriental

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