Social
As guerreiras do mar

As guerreiras do mar

Arriscam a vida quase todos os dias e são uma espécie de «guerreiras do mar». Dedicam-se à apanha de percebes. Nas rochas, longe da costa, enfrentam o mar picado, corpo a corpo. Estas mariscadoras mostram como a coragem também se escreve no feminino.

Tem 49 anos e se o mar falasse ela entendia tudo de olhos fechados. «É preciso estar sempre de pé atrás com ele», diz Sofia. É das raríssimas mulheres «percebeiras» em Portugal. Toda a sua vida tem sido a acordar antes de o Sol nascer, a medir forças com o mar ou a observar a costa para decidir onde ir à pescaria. Por várias vezes, Joana esteve perto da morte. Quem lhe ensinou tudo sobre o mar e a apanha de percebes foi o pai – que morreu no mar – e o irmão. Hoje, Sofia é uma espécie de «guru» da pescaria. Tem cédula profissional de pescadora e lidera um grupo de mulheres que mostram que a coragem também se escreve no feminino, pela costas rochosas do Norte de Portugal.

As suas ajudantes – uma irmã, uma filha e outra sobrinha – têm entre 23 e 36 anos de idade e esta é a sua única fonte de sustento.

Ainda quase o s ol não nasceu e já elas vestem os fatos de mergulho de neoprene, colocam as barbatanas e, de pranchas ao alto, lá vão elas mar adentro, à hora da baixa-mar. Às vezes, quando o mar está calmo ou o calor se faz sentir em excesso, nem vestem o fato de mergulho. Mas a cerca de meio quilómetro ou mais da costa as rochas são agressivas e magoam, deixando marcas severas no corpo. «Estou cheia de pisaduras, de ir contra as rochedos. Mas eu gosto. Mesmo quando o mar está rijo e o percebe é mais difícil de apanhar. Gosto do mar, até porque é a minha sobrevivência», diz Joana.

As barbatanas são «o 9.9 hp» delas, ou seja, o «motor» artesanal para chegar até às rochas.

Sofi a levanta-se muitas vezes antes de o Sol nascer para observar a costa. «Vejo o mar, observo a costa, e já sei, por instinto, onde ir à apanha. Sou a primeira a acordar e sou eu que as acordo a todas», conta Sofia. Consulta na net o site Wind Guru e depois é ela quem comanda as outras mulheres. Muitas vezes encontram-se com outros grupos que andam à apanha. Vão ao mar às vezes duas vezes por dia, quando a maré permite. Vão de prancha «até às pedras», rochas e rochedos longínquos que conhecem pelo nome. Guilhado, ao largo do Mindelo, Rocador, Galinheira de Fora, Monção, Rachado, Leixão, Monção em Sampaio (Labruge), Pedrinha do Macaco, Pés de Galinha, Buzineira, Tripas… cada um dos rochedos dentro do mar foi batizado e simboliza um novo desafio diário.

Uma dança de equilíbrio

Saem muitas vezes com nevoeiro e, passadas duas horas de confronto com o mar, com uma «raspa» ou faca de mariscar batem na pedra e arrancam os percebes. «O problema é que eles são maiores e mais saboroses junto às rochas com mar mais picado, ou seja, mais perigoso.» Os percebes adaptam-se especialmente às agrestes condições físicas e biológicas das bases das falésias e rochedos, expostos à rebentação e às correntes marinhas.

Trabalham com luvas, mas mesmo assim têm as mãos cheias de calos. «Depois ainda temos de carregar com o peso» até à praia. «Passadas duas horas, quando a água começa a subir, temos de ser rápidas porque depois fica muito perigoso, temos de voltar para terra.» Equilibram-se nos rochedos picados e escorregadios com desembaraço e rapidez, jogam com o vaivém das ondas, colam o corpo às rochas, à cintura um saco de rede, o bornel. Pelo silêncio da manhãzinha, no inverno, muitas vezes ainda se gela. «No inverno, é muito complicado mesmo, temos de perder o medo», diz Sofia

Nem as marés vivas as assustam

Hoje é dia de marés vivas e forte ondulação, mas as mulheres marisqueiras metem-se mar adentro e rapidamente estão já em cima do rochedo mais alto, a cerca de quinhentos metros da costa. Parecem um exército, um formigueiro, rocha acima, rocha abaixo, com cuidado porque a cada segundo surge uma onda alta que rebenta com estrondo. Seguram-se com dificuldade às rochas, trepam, agarram-se, mergulham e tornam a vir à tona. Só de vê-las fica-se já cansado.

Com elas, só mesmo as gaivotas e o marulhar das ondas, porque poucos são os que se aventuram a subir os rochedos nesta zona, exceto os que «andam ao polvo e ao isco». Já com os sacos de rede cheios, regressam, cada uma com o peso às costas, deixando lá ainda muitos propositadamente selecionados com olhar experiente, sobretudo os mais pequenos, «para daqui a um mês, pois há que dar tempo a que cresçam. Fazemos questão de não estragar a criação». Ou então fica para os sargos, exímios mariscadores e por isso de carne tão saborosa.

Vendem o resultado da safra a restaurantes e mercados, «nesta altura do ano a cinco euros o quilo», quando nos restaurantes normalmente se paga 30 e 40 euros pelo mesmo quilo… Joana, como tem cédula de pescadora, gostava de «ter uma embarcação». «Mas isso custa muito dinheiro. Tenho carteira profissional de pescadora e cédula marítima e já cheguei a andar nos barcos em lugar de camarada» (o indivíduo que auxilia o pescador na faina).

Hora de regressar a casa, ao fim da manhã, para tirar os fatos e tomar um banho de água doce. Mas a labuta ainda não acabou. É altura de «apartar», ou seja, retirar o mexilhão, algas e a pedra e limpar os percebes. Depois, é hora de tentar vender nos mercados e restaurantes da costa. «Trabalhamos muito agora, que é para quando faz seca, ou seja, quando o mar não deixa.»

Leis e a sobrevivência

Sendo que a apanha do percebe é uma atividade tradicional com forte enraizamento familiar, há clãs que se dedicam à apanha há décadas, tanto na zona Norte como ainda na Costa Vicentina e Berlengas, principais zonas onde crescem estes crustáceos. Até 2006, não existia qualquer regulamentação em Portugal mas recentemente foram criados regulamentos que condicionam a apanha comercial do percebe em duas áreas protegidas: Reserva Natural das Berlengas e Parque Natural do Sudoeste Alentejano/Costa Vicentina. Os mariscadores incorrem em multas entre 958 e 49 879 euros quando não têm licenças. Muitos sabem desse facto, mas arriscam porque é uma atividade sazonal e artesanal, eminentemente familiar, e vivem apenas disso.

O que é um percebe

Quando comemos percebes, acompanhados de uma borbulhante cerveja, esquecemo-nos do risco que alguém passou para eles nos chegarem assim ao prato. Os Pollicipes pollicipes são crustáceos que vivem agarrados às rochas na zona entre-marés e mesmo abaixo do limite inferior da baixa-mar, são sobretudo melhores nas zonas de maior rebentação e, por isso, de mais difícil e arriscado acesso. Os percebes alimentam-se de zooplâncton e são hermafroditas, ou seja, fazem fecundação cruzada. É também por razões de fecundação que se juntam naturalmente em aglomerados a que se chama popularmente «pinhas». É por isso que é preciso ter cuidado ao apanhar percebes adultos porque muitos dos juvenis vêm atrás. A apanha de percebes dura todo o ano, se bem que no inverno custe bem mais, devido ao frio, ao vento e à intempérie no mar.

Fonte: DN magazine

3 Comentários neste artigo

  1. Judith

    Deviam haver mais licenças para a apanHa das Percebes é triste não darem as suficientes e depois claro as pessoas por uma questão de sobrevivência arriscam pensem e façam licenças para quem realmente faz das Percebes a sua vida.

    Responder
  2. Pois eu sou a irmã que a apanhadora fala andamos 20 anos ao Mar mas vim trabalhar para a Bélgica tenho muitas saudades com muita alegria digo que somos as guerreiras do Mar irmãos sobrinhos todos juntos nesse Mar Maravilhoso um Bem haja aos Torinhas

    Responder
  3. VICTOR MONTEIRO

    ahahah…minha terra, pessoal a mostrar cm é, ah pois é…elas sabem aí se não sabem, já na escola via-se q eram mulheres rijas, q saudade de tar na minha terrinha, agarrado ao meu calhau, de raspa na mão a apanhar este petisco…só n tenho saudade é da água fria…eheheh

    Responder

Deixe um Comentário