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Carapau em destaque no “Peixe em Lisboa”

Carapau em destaque no “Peixe em Lisboa”

Depois da cavala, e numa época em que a sardinha é escassa, chegou a vez do carapau ser alvo de iniciativas com vista à sua valorização comercial. O festival gastronómico lisboeta que glorifica o peixe convida chefs portugueses de nomeada a apresentarem novas formas de confeção do trachurus trachurus.

O Peixe em Lisboa afirmou-se, em quase uma década de existência,como um dos festivais gastronómicos de referência de Portugal, possivelmente o mais importante da capital do país. Edição após edição, são vários os chefs portugueses e estrangeiros com estrelas Michelin que marcam presença, para deleite das centenas de pessoas que se deslocam ao evento, em plena Praça do Comércio (Terreiro do Paço). No meio de tanta pompa, seria difícil prever que o carapau tivesse um lugar de destaque na edição deste ano, que decorre até ao próximo domingo.

O próprio presidente da Câmara Municipal de Lisboa atesta o grau de improbabilidade deste facto: “Se há uns anos nos dissessem que o carapau seria alvo de destaque num evento gourmet, todos nós estranharíamos”, indicou na apresentação do festival, no salão nobre dos Paços do Concelho, o espaço que dá acesso à varanda onde em 1910 foi proclamada a República.

Durante esta espécie de proclamação do trachurus trachurus (denominação científica do carapau), o autarca considerou que, apesar de esta espécie não ser cronicamente tão categorizada como a maioria das outras, “a sua valorização é possível, à imagem do que tem acontecido com a cavala”.

Nos anos mais recentes, por via de ações de promoção feitas por entidades como a Docapesca, com a colaboração de nutricionistas, chefs e outros profissionais ligados ao mundo da cozinha, a cavala tem ganho espaço na gastronomia portuguesa. O Peixe em Lisboa também contribuiu para este processo, ao dar-lhe palco em edições recentes do festival.

Este ano, o carapau foi o tema principal de uma tertúlia  batizada com o nome de uma expressão tipicamente portuguesa, “Carapaus de Corrida” (ver origem nos últimos parágrafos). Durante a sessão, os chefs portugueses Miguel Castro e Silva, Paulo Morais e Marlene Vieira, responsáveis por alguns dos restaurantes mais conceituados de Lisboa, apresentaram novas formas de confeção deste peixe.

Na tarde do dia 17, que marca o encerramento do Peixe em Lisboa, o chef Mário Rolando, um dos principais especialistas portugueses na área do pão, vai apresentar um produto do qual até hoje poucos ouviram falar, uma Bola de Carapau.

“Os presentes terão oportunidade de a provar e até levar para casa”, revelou Duarte Calvão, diretor do Peixe em Lisboa, também na apresentação do festival.

“Numa época em que a sardinha está a passar por um momento mais difícil e não pode ser pescada, e a cavala já entrou na moda, fruto de um trabalho de implementação, agora é importante puxar pelo valor comercial do carapau”, considerou o responsável, em jeito de conclusão sobre a temática.

Com um tratamento tão particularizado, ninguém se atreverá a afiançar que “o carapau é para o gato”, como em tempos foi costume entre os portugueses. É caso para dizer que na edição deste ano do Peixe em Lisboa, o trachurus trachurus nunca se sentirá jaquinzinho, mas sim um chicharro, ou seja, um carapau de grande dimensão.

 

Conjunto de chefs repletos de estrelas

Para além da ode ao carapau, a 9.ª edição do Peixe em Lisboa conta com a estreia no festival da espanhola Elena Arzak, do italiano Pino Cuttaia e do hispano-brasileiro Diego Gallegos, três chefs internacionais com oportunidade para demonstrarem as competências na confeção de pratos de peixe que já lhes valeram várias distinções.

Só a espanhola, filha de um nome lendário da gastronomia mundial (Juan Maria Arzak), pode gabar-se de ostentar três estrelas Michelin. Pino Cuttaia tem duas e Diego Gallegos outra.

Entre os chefs portugueses, destaque para o mais recente estrela Michelin português, Rui Silvestre. Henrique Sá Pessoa, Vítor Sobral, José Avillez, Kiko Martins e Alexandre Silva são outros rostos nacionais conceituados que marcam presença.

Nuno Mendes, que faz carreira em Londres há dez anos, regressa ao festival: “Temos que manter esta ligação com os chefs portugueses que nos representam tão bem lá fora”, justificou Duarte Calvão.

Sendo os portugueses os maiores consumidores de peixe da União Europeia (os terceiros à escala global), fazia todo o sentido que a capital do país organizasse um festival como este. Mais inesperado seria que o carapau ganhasse tanto destaque por entre tão distinto cardápio.

 

De onde partiu o “carapau de corrida”?

A expressão é conhecida da generalidade dos portugueses, mesmo daqueles que partiram há várias décadas para destinos distantes, mas mais difícil é que saibam a sua origem, até porque a própria é incerta. Mas apesar de não haver documentação que o comprove, o mais provável é que o “carapau de corrida” tenha partido das lotas. Mesmo sendo um peixe que é rápido, acaba apanhado nas redes de pesca, chegando assim às vendedoras. Estas encontraram assim um excelente exemplo para evidenciar que mesmo os melhores, ou os que se acham melhores, podem acabar por ser apanhados ou desmascarados.

Outra versão alega que a expressão pode ter surgido nos leilões invertidos, também praticados nas lotas. O peixe de maior qualidade era vendido em primeiro lugar e para o fim ficavam os peixes menos valorizados. Conta-se que as peixeiras que compravam esse peixe de fim da lota, iam a correr até à vila, para tentarem chegar ao mesmo tempo que as primeiras peixeiras e assim enganar os clientes, vendendo o peixe ao mesmo preço que as outras. Só que alguns fregueses percebiam que aquele era… “carapau de corrida”, um peixe de menor qualidade.

Fonte: REVISTA PORT.COM

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