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Jangada de lixo entre as Caraíbas e os Açores, constituem um perigo para a biodiversidade marinha nos mares da Região

Jangada de lixo entre as Caraíbas e os Açores, constituem um perigo para a biodiversidade marinha nos mares da Região

Correio dos Açores – Os Açores devem recear as jangadas de lixo?
Hélder Silva (Director do Departamento de Oceanografia e Pescas) – O lixo é um problema que está a ser objecto de levantamento por várias organizações internacionais e nacionais a nível mundial. É um problema que bate à nossa porta porque há vários focos, mas há um foco de lixo que vem da corrente das Caraíbas e que apanha a corrente do Golfo e que é retido, parte deles, nos Açores ou que passa ao largo dos Açores. É um problema e é um problema para o qual devemos estar atentos e devemos fazer um esforço partilhado com estas organizações no sentido de ter um conhecimento melhor do problema e procurar contribuir para a sua resolução, embora tenha de ser feita nos países emissores deste lixo, na costa Americana e Caraíbas.
Nós temos tido aqui alguns contactos particularmente com uma organização internacional que é a International Pacific Research Center que tem feito investigação nesta área dos lixos marinhos e temos também uma colaboração com a Azorina, uma empresa açoriana, que utilizando alguns recursos da secretaria regional do ambiente está disponível para fazer um levantamento especialmente na costa das ilhas mas estes resíduos na costa das ilhas dão-nos uma ideia do que se passa no alto mar. há aqui intenções de trabalho nesta área, com o envolvimento de algumas entidades do governo regional dos Açores.

Que espécies foram extintas no meio marinho açoriano?
Temos duas espécies marinhas extintas: A foca monge, que existe na Madeira embora com um nível de população muito baixo e existia nos Açores na altura da descoberta das ilhas e o calcamar que é uma ave marinha extinta. 
As espécies que, segundo a IUCN- International Union for Conservation of Nature classifica como “critically endangered”, temos a ave marinha Painho Monteiro, que é uma espécie que nem era conhecida nos Açores. Foi descoberta há cerca de 20 anos e é uma espécie endémica. Existe apenas uma pequena população na Graciosa.
Depois temos algumas espécies ameaçadas ou em perigo. A um nível não crítico, mas ameaçadas, temos o cagarro, que é comum entre os açorianos mas detemos cerca de 65% da população. Neste momento, somos um reduto para esta espécie. Ela está praticamente extinta ou com níveis muito baixos noutras regiões. Portanto, merece uma referência e um esforço particular de conservação. Temos também o garajau-rosado, o estapagado, temos a alma-negra e o frulho. Todas estas espécies são da mesma família dos procellariiformes, espécies todas elas aparentadas. 
Ao nível dos mamíferos marinhos temos quatro espécies que estão dadas como “em perigo”: Temos a baleia azul, a baleia franca que é uma espécie rara e descoberta entre nós há uns anos mas que está em perigo. Temos a baleia-comum e os sardinheiros. Tudo isto são baleias do mesmo grupo.
Nos peixes só consigo recordar uma espécie considerada “em perigo” pelo IUCN que é o mero. Embora a população de mero aqui nos Açores esteja um pouco melhor do que se encontra noutros pontos, como no Mediterrâneo. Mas a verdade é que é uma espécie em perigo. 
Outros peixes, espécies ameaçadas temos o atum rabilo, que é uma espécie que, embora tenhamos pouco, é uma espécie que passa aqui pelos Açores e, embora seja ainda capturada em níveis muito baixos em alguns pontos designadamente no Mediterrâneo, é uma espécie considerada ameaçada.
Temos também algumas espécies de tubarões que provavelmente não estão em perigo mas são espécies consideradas ameaçadas em resultado do efeito da pesca. Menos entre nós, mas em resultado do esforço de pesca que se vai desenvolvendo noutras áreas, os tubarões de profundidade são, neste momento, alvo de conservação. Também alguns tubarões pelágicos mas particularmente os tubarões de profundidade.
Uma referência também para um grupo de animais que possuímos com alguma riqueza e que é um conjunto de espécies muito variada e que está em risco ou ameaçada e em alguns casos até em perigo crítico que é o caso dos corais. Nós temos a felicidade de ter ainda algumas florestas de corais em bastante bom estado simplesmente pelo facto de não utilizarmos redes de arrasto nos Açores. Porque a verdade é que o arrasto destruiu os corais em muitos pontos do globo e temos aqui um manancial de biodiversidade, de riqueza nos nossos mares que é muito considerável e que impõe um esforço relevante de conservação, até porque muitas destas espécies de corais têm uma enorme longevidade. Muitas delas vivem perto de 3 mil anos e é fácil perceber que a destruição deste grupo de espécies dos corais não há recuperação possível.
Também uma referência para o peixe relógio que é um peixe que é objecto de pesca em alguns pontos do globo como no Sul da Austrália, Nova Zelândia, Namíbia, fez-se inclusivamente aqui há anos uma curta experiência de pesca aqui nos Açores mas esta espécie é muito sensível à exploração e neste momento é objecto de medidas de conservação muito particulares. Também porque se trata de uma espécie com uma enorme longevidade, mais de 100 anos, e espécies com esta longevidade quando sujeitas à exploração elas praticamente não recuperam. Isto não é uma lista exaustiva mas é um levantamento rápido daquilo que são as espécies que me ocorrem. 

É contrário à exploração dos recursos que existem de peixe relógio no mar dos Açores?
Esta espécie existe em profundidades abaixo dos 800/1000 metros de profundidade. 1200, 1300 e 1500 metros de profundidade.
Penso que não faz sentido explorar essa espécie nos Açores. Tudo aquilo que não é sustentável não faz sentido absolutamente nenhum e estarmos a explorar um recurso que se sabe que ao fim de um ano ou dois está extinto, não vai recuperar e esta pesca que ainda por cima recorre a tecnologia de ponto e dificilmente tiramos grandes mais-valias de uma pesca deste tipo. Vamos ter que introduzir a pesca de fora e perdemos um pouco o controle e a capacidade de retermos as mais-valias da própria actividade e acho que não faz sentido. Neste momento até seria uma impossibilidade porque esta espécie é objecto de medidas especiais de protecção portanto estaríamos impedidos de a capturar.

Fonte: Correio dos Açores

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