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Património Baleeiro: será desta?

Património Baleeiro: será desta?

Está a passar por aqui uma nova preocupação para recuperar e defender o património baleeiro, com a qual me congratulo. Tarde é o que nunca chega – diz o povo. Mas se as autoridades tivessem atentado nas denúncias feitas há muito, a preservação desse património teria sido feita.

Miúdo ainda, fui informado da caça à baleia na Ilha de São Miguel.

Nado e criado na Vila baleeira dos Açores, as Lajes do Pico, todo o meu imaginário social-cultural e lúdico girou em torno dessa atividade que vitimou baleeiros e alimentou dezenas e dezenas de famílias.

Quando vim estudar para São Miguel, a atividade baleeira acompanhou as minhas vivências, pois o meu colega José Francisco Costa, cujo pai estava ligado à faina, contava-me estórias de baleeiros das Capelas onde, nos anos 40, fora construída a primeira fábrica dos Açores.

Mais tarde, face à recuperação do património baleeiro no Pico e no Faial, na sequência da extinção da caça à baleia, interessei-me por conhecer tudo quanto dissesse respeito à baleação em São Miguel.

Apercebi-me, então ter sido esta uma indústria pouco considerada pelos agentes económicos, se bem que, em redor da ilha e na “memória das gentes”, ela se mantivesse bastante viva.

Ao longo de vários anos, efetuei reportagens, ouvi pessoas, com o intuito de reavivar a memória baleeira micaelense, dando-a a conhecer aos mais novos e às gentes das outras ilhas, onde a atividade tinha grande projeção.

Esses documentos históricos estão nos arquivos da RTP-Açores – assim o espero – e atestam já nos anos 80, o estado degradado de equipamentos e instalações, nomeadamente da Fábrica dos Poços. Mesmo assim, os guias turísticos, cientes das memórias da sua ilha, não deixavam de a mostrar aos visitantes. Um deles manifestou publicamente a sua mágoa pelo abandono a que as instalações estavam votadas.

Nas traseiras da fábrica e debaixo de um telheiro, encontrava-se abandonado, à chuva e à maresia, provavelmente, o último exemplar do bote a motor.

No pátio exterior, um antigo trabalhador, tisnado pelo sol e pela bebida, olhava o esmeril enferrujado, comido pelo uso, e explicava como limava os facalhões de cortar a carne e o toucinho.

No interior do edifício, construído à semelhança das “usines” francesas, segundo me  explicou um filho do Eng. Pedro Cymbron, o teto ameaçava ruir, mas as fornalhas para alimentar os autoclaves pareciam aguardar o fogueiro para poderem voltar a accionar todos os mecanismos de desmancho e aproveitamento da carne dos cetáceos.

Noutra ocasião, recordo ter entrevistado o mestre da “Vedeta”, que reclamava por a sua “menina dos olhos” estar ali desprezada, descarnada do cobre que lhe revestia o casco…

Nos arquivos da RTP-A está também o relato de uma viúva, cujo marido  foi levado por uma baleia e nunca mais apareceu. Já não tinha lágrimas, a franzina mulher vestida de negro dos pés à cabeça, pois, desde muito nova, vivendo num casebre junto ao porto, chorava a saudade do seu homem.

No bairro dos Baleeiros, construído pelo Eng. Cymbron para acolher as famílias de baleeiros e trabalhadores da fábrica oriundos de Santo António e da Bretanha, quase ninguém se lembrará do porquê daquele nome.

Vigias de baleias há-as, por essa ilha fora, do norte ao sul. Rampas, barracões, cabrestantes e caldeiros ainda se encontram no Faial da Terra, no porto de Santa Iria… Mas os botes, esses desapareceram, exceto o Santa Joana que o Parque Atlântico faz questão de manter em exposição e o Senhora de Fátima, construído em 1945, nas Capelas e recuperado no Pico, para Miguel Cravinho.

Já em 2008, aqui neste jornal, afirmava que A destruição da Fábrica da Baleia das Capelas é um grave crime de lesa-património, porque destrói a memória de um povo que não olhou a meios e sacrifícios para sobreviver, mostrando, na luta com o monstro marinho, a sua coragem e valentia.

A destruição da Fábrica da Baleia das Capelas permite concluir que o mesmo se poderá passar com exemplares de outras actividades industriais: a chicória e o linho, por exemplo. A fábrica do linho da Ribeirinha continua ao abandono e os antigos edifícios das fábricas de chicória também.

Nos últimos meses temos assistido a um levantamento do que resta do património baleeiro em São Miguel. É uma atitude diferente das autoridades para com o acervo baleeiro.

Que não se fiquem apenas pelas reuniões, grupos de trabalho e relatórios, porque passa o tempo e o património degrada-se.

Ajam, mas depressa!

José Gabriel Ávila in Diário dos Açores

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