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Apetite da Ásia torna meixão negócio ilegal de milhões

Apetite da Ásia torna meixão negócio ilegal de milhões

A apanha ilegal de meixão em Portugal está nas mãos de redes de contrabando chinesas. Só desde outubro de 2017, já foi apreendida mais de uma tonelada desta espécie protegida, a maior parte já nos aeroportos, a caminho da Ásia. Os asiáticos chegam a pagar 20 mil euros por quilo.

As autoridades portuguesas apreenderam, desde outubro de 2017, mais de uma tonelada de meixão, uma espécie protegida muito valorizada em território da Ásia.

Este “apetite” faz com que se tenham formado em Portugal redes de contrabando chinesas para apanha ilegal de meixão e sua comercialização. A maioria das apreensões ocorreu já nos aeroportos, com o produto a caminho da Ásia.

O esquema envolve métodos engenhosos e muito dinheiro.

A apanha ilegal de meixão é uma atividade conhecida em zonas ribeirinhas e fluviais, gerando um “jogo do gato e do rato” entre pescadores e polícia.

Tradicionalmente, Espanha é destino do produto, porque no país vizinho, e espécie é apreciada como iguaria. O meixão sempre chegou por via terrestre, através da mais tradicional forma de contrabando. Todavia, o negócio ilegal do meixão cresceu e sofisticou-se de tal maneira que já pode ser classificado como crime transnacional.

“Estamos em presença de crime organizado em termos internacionais, tendo em conta que esta mercadoria atinge, sobretudo em termos do mercado negro asiático, um valor absurdo”, diz a diretora da Alfândega do Aeroporto de Lisboa, Miquelina Bebiano.

Os asiáticos “chegam a pagar 20 mil euros por quilo”. O elevado valor desta espécie no mercado negro “leva os prevaricadores a formas muito engenhosas de conseguir que os animais cheguem vivos ao destino e, por outro lado, de dissimulação” de modo a não ser detetada nos aeroportos.

Miquelina Bebiano tem dados mais do que suficientes para sustentar a afirmação. Só nos últimos três meses os serviços alfandegários dos aeroportos de Lisboa e Porto apanharam 693 quilos de meixão, escondidos dentro de 34 malas, que 23 passageiros, todos chineses, estavam a tentar levar para o continente asiático.

A preços calculados pela tabela de mercado negro, estas apreensões valem, no seu conjunto, 1,4 milhões de euros.

 

Esquemas engenhosos

Este novo esquema preocupa as autoridades portuguesas e do resto da Europa.

Desde 2013 que os aeroportos da Península ibérica são usados para levar ilegalmente meixão para o continente asiático.

Começou por ser despachado como carga normal, embora sob denominação falsa (geralmente passando por filetes de pescada ou bacalhau), mas, em 2016, os métodos mudaram. O meixão é agora levado em malas de viagem normais, transportadas por passageiros que não são mais do que correios pagos para o efeito.

E se os números das apreensões já são bastante elucidativos da dimensão que o esquema atingiu, surpreende ainda mais a forma engenhosa como está a ser concretizado. Tudo porque o meixão tem que ser transportado vivo.

“Todas as cargas foram detetadas nas bagagens de porão. É determinante que o meixão chegue vivo ao destino e o percurso mais rápido, sem tempos de espera no desalfandegamento, leva a que as pessoas façam o tráfego em termos das malas de bagagem que vão acondicionadas em água. Para além disso, vão acondicionados conjuntamente com sacos de gelo e com películas, de forma a permitir que a temperatura se mantenha durante todo o percurso da viagem”, afirma a diretora da Alfândega do Aeroporto de Lisboa.

Praticamente todo este processo é controlado por grupos criminosos chineses. Nos casos mais recentes, foram usados voos para o Vietname, Filipinas, China e Hong Kong.

Uma vez no destino, o meixão tem sobretudo dois aproveitamentos: o culinário, em pratos gourmet muito apreciados, principalmente no Japão, onde os restaurantes chegam a pagar 20 mil euros por quilo; e a criação de enguias, a partir destas enguias-bebé contrabandeadas.

Os criadores pagam cerca de 8 mil euros por quilo aos traficantes, mas usam-no para mais do que um negócio. O meixão é libertado em arrozais, onde cresce e engorda comendo os parasitas daquelas culturas. Dessa forma, não só ajuda na produção de arroz, como acaba – já em fase adulta – por ser comercializado em toda a Ásia e até exportado de volta para a Europa.

 

Apanha intensa de Outubro a Março

Em Portugal, os apanhadores continuam a ser portugueses, aqueles que o sabem fazer. Com uma diferença: deixaram de vender a espanhóis para passarem a vender a chineses.

O comandante Coelho Gil, capitão do Porto de Lisboa, explica que, apesar de toda a vigilância, a apanha mantém-se intensa, especialmente entre outubro e março, o período em que o meixão sobe os rios nacionais.

Os valores monetários são bem menores, mas, ainda assim, tentadores para quem se dedica à apanha.

“Através de estudos da União Europeia, que estuda os preços do quilo de meixão em todos os países onde há repovoamento da espécie, temos conhecimento que em Portugal tem valores entre 300 e 400 euros para o apanhador. Como é uma espécie cuja apanha é ilegal, atinge no destino valores mais elevados ou muito mais elevados”, diz Coelho Gil.

Somando os dados de todo o país, em 2017, a Polícia Marítima apanhou 200 quilos de meixão, geralmente ainda nas redes próprias para o efeito – também elas apreendidas às dezenas.

O mesmo tem acontecido com a GNR, que na sua área de jurisdição, já pelos rios acima, apreendeu no ano passado 144 quilos de meixão e 330 redes.

As zonas de maior atividade são os rios Mondego, Tejo, Sado, Lis, Sorraia, Alcoa, Ave, Douro, Cavado e Lima.

Nestas e noutras zonas, GNR e Polícia Marítima juntas fizeram, só no ano passado, mais de 600 operações de fiscalização, mas é raro conseguirem-se flagrantes delitos, diz o capitão do Porto de Lisboa.

“Há locais que já estão identificados como locais de apanha. Sabemos que há locais onde os apanhadores colocam as suas redes, essencialmente as redes de tela, e temos tido sucesso essencialmente na recolha das telas que estão fundeadas. Só que as telas são fundeadas e os proprietários das telas, ou os apanhadores ilegais, não têm que forçosamente estar junto das redes. Por isso, muitas vezes, o nosso trabalho é de recolha das redes ilegais que estão fundeadas, porque os apanhadores fogem à aproximação das autoridades. Daí a dificuldade em apanhar o apanhador junto do sistema de apanha”, afirma.

O meixão, nome que é dado às enguias bebés, nasce no Mar dos Sargaços, em pleno Oceano Atlântico e quando chega à costa europeia, arrastado pelas marés, começa a subir os rios de vários países, onde vai crescer, se não for apanhado.

Como acontece com outras atividades ilegais que, como esta, dependem de alguma sazonalidade, as autoridades atuam cada vez mais com base na análise de risco. É apenas entre outubro e março que há meixão em Portugal, o que leva a Alfândega do Aeroporto de Lisboa a apertar a vigilância nesses meses.

As investigações mais recentes, de maior dimensão, não estão ainda concluídas. Em causa está o contrabando aduaneiro qualificado, em parte agravado pelo facto de a mercadoria ser uma espécie protegida por estar em vias de extinção. Neste caso, as penas podem ir até aos cinco anos de prisão.

Se for tratado como mero crime contra a natureza, a pena de prisão já só vai até aos dois anos. Já os pescadores ou apanhadores, esses, sujeitam-se a contraordenações a partir dos 600 euros.

Fonte: Rádio Renascença

 

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