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Associação de Comerciantes quer que o Governo açoriano abra a venda de activos da Espada Pescas ao sector empresarial

Associação de Comerciantes quer que o Governo açoriano abra a venda de activos da Espada Pescas ao sector empresarial

Pedro Melo, Secretário-geral da Associação de Comerciantes de Pescado dos Açores, insurgiu-se ontem contra a possibilidade da Cooperativa de Pesca Açoriana, criada pela Federação das Pescas, com 10 associações associadas, ser privilegiada no acesso aos activos da empresa pública Espada Pescas, que o Governo dos Açores decidiu encerrar. 

Explica que o Governo, quando negocia com uma empresa “só, fica condicionado àquela proposta. Se disser que tem activos e quem quiser venha cá comprar, se aparecerem dois ou três compradores, naturalmente que o preço irá subir. Esta é uma regra do mercado. Se está já a negociar com um parceiro e está a criar condições para que ele fique com o património, evidentemente que isto não é bom para o contribuinte”, afirmou Pedro Melo 

“Não podemos esquecer que a Espada Pescas foi uma empresa sempre deficitária. Propôs-se fazer exactamente o que esta cooperativa se está a propor. Ficou-se pelo mercado regional, nomeadamente, na ilha de São Miguel. E com uma ou outra intervenção, lá de vez em quando, numa ilha ou outra, com quantidades muitas reduzidas. Isto para dizer que o desenho que estamos a ver é exactamente o mesmo com agravante que há aqui activos que vão ser negociados que, até ao momento, ninguém entendeu nem ninguém questionou”, afirmou.

“Não se pode ter dois discursos distintos que são: Vamos extinguir empresas porque não faz sentido concorrer com o sector privado. Agora, cria-se uma entidade ligeiramente diferente, com condições diferentes, para concorrer com o sector privado? Para nós isso não faz qualquer tipo de sentido”, sublinhou.

 

Cooperativa pode ser benéfica…

Pedro Melo começou por deixar claro que a associação “não tem nada contra a criação de uma cooperativa ou de uma empresa. Nós estamos habituados a estar no mercado em concorrência livre”, começou por dizer Pedro Melo.

Acredita mesmo que, com a cooperativa no mercado, o Governo dos Açores possa “ouvir com mais atenção aquilo que, por mais que falemos, não somos escutados. Se calhar, tendo alguém do lado da produção, possa haver aqui um parceiro que até nos venha ajudar nesta comunicação porque, no dia em que uma cooperativa de produtores se tornar comerciante, vai ter os mesmos problemas do que nós”, completou.

A Associação de Comerciantes de Pescado manifesta “preocupação” é com a forma como a Cooperativa de Pesca Açoriana começou por ter acesso à possibilidade de ficar com os activos da Espada Pescas e com a eventualidade de ser favorecida na atribuição dos activos da empresa pública.

“A questão aqui que nos preocupa é a seguinte: Para já, há aqui uma informação que é privilegiada. A Federação das Pescas sabe que, proximamente, a empresa Espada Pescas vai fechar e já estão a pôr de pé um projecto. Do lado de cá, da área dos comerciantes, ninguém sabia disso, o que configura já um privilégio de informação. Até porque pode haver outros interessados. Aliás, nós sabemos que há outros interessados”, afirmou Pedro Melo.

E o Secretário-geral da Associação de comerciantes acrescenta outra “preocupação”. Uma cooperativa recentemente criada que, “provavelmente, não terá capitais por aí além, vir a absorver activos de uma empresa que sabemos que tem um armazém, que tem estruturas montadas, que tem funcionários e um mercado que se reduzia, basicamente, ao mercado regional, isto preocupa-nos porque tem de haver aqui condições naturalmente especiais para que esta cooperativa, um dia, venha a absorver estes activos. E é isso que não queremos que aconteça”, completou.

“Sabemos que há um processo a decorrer. Sabemos que já houve contactos, por exemplo, para colocar um administrador na cooperativa. Sabemos que já ouve um assegurar, por exemplo, de alguns funcionários. Portanto, este é um processo que está a decorrer e que ninguém tem conhecimento dele a não ser aquilo que saiu publicamente e que é muito pouco”, explicou. 

E Pedro Melo, a propósito, questiona: “Faz sentido uma empresa pública que penalizou os contribuintes, quando chega o momento em que o governo decide encerrar, os seus activos não sejam postos à venda para quem quiser comprar? E os contribuintes serem ressarcidos do máximo possível? Bom, acho que faz todo o sentido. No fundo, estas são preocupações que nós temos e não queremos que venham a ser uma realidade”, sublinhou.

“Eu posso dizer”, prosseguiu, que “houve empresas e empresários em nome individual que estavam interessados neste processo. Já nos fizeram sentir este interesse. Uns na estrutura física da empresa e outros no negócio que ela tinha desenvolvido até aqui”.

O facto é que “fomos surpreendidos com tudo isso. Aliás, o sector ficou todo surpreendido. Talvez quem não tenha sido surpreendido foi a Federação das Pescas e as associações…”, referiu.

“Há até funcionários que vieram a saber daquela realidade e daquele interesse” pela entrevista do jornal Correio dos Açores ao Presidente da Federação das Pescas, Gualberto Rita. 

“Parece-nos que se começa a configurar algum caminho efectuado especificamente para uma realidade que nós não podemos concordar com ela. E esta mensagem clara que gostaríamos de deixar aqui em nome de empresas que andam com extremas dificuldades. Não são dificuldades de agora, são de há muito tempo. Pelo amor de Deus, nós não pedimos subsídios, nós não pedimos que nos levem ao colo mas, por favor, não nos ponham mais pedras no sapato porque isto, de facto, é extremamente doloroso, e já não há margem para mais”, palavras do secretário-geral da Associação de Comerciantes de Peixe.

Pedro Melo cita Gualberto Rita, quando afirmou ao Correio dos Açores que a nova cooperativa vai para novos mercados, vai participar em feiras, vai descobrir novos clientes. “Ora”, contrapõe, “isso é o que fazemos diariamente há 40 anos. A promoção do pescado foi feita pelas empresas que existem hoje em dia. E já tiveram mercados como o Japão, Tailândia, como a Alemanha, Rússia. Agora, há aqui um outro problema. Porque é que não estamos a conseguir ir para outros mercados? Devido aos constrangimentos que temos. Compra-se 20 toneladas de pescado em lota e a oferta que tenho de voos é de 1.500 quilos por dia…”

 

Lotaçor não está em crise devido a dívidas dos comerciantes

Quando questionado sobre as dividas que as empresas de comercialização de pescado devem à Lotaçor, Pedro Melo responde com outra questão: “Diga-me qual a actividade comercial onde não haja crédito”. 

A Lotaçor faz a intermediação da primeira venda e “o que está mal aqui, para nós”, afirmou, “é muito simples. É que, para montante (Lotaçor) temos um pagamento quase a pronto e, para jusante (clientes), tudo trabalha a crédito. Nós vendemos a um cliente é a crédito, o cliente vende a outro, é a crédito, vende à cadeia distribuidora a crédito. Para trás (Lotaçor) é que a realidade funciona a pagamento até 15 dias e que tem de ser cumprido escrupulosamente”.

Esta questão “é também importante” por outra razão. Há créditos com a Lotaçor que “são negociados com garantias bancárias. Ou seja, no limite, assume-se a garantia e aquele crédito desaparece. E, já agora, também aproveito: O problema da Lotaçor, a sua dívida não é, de forma alguma, causada pelos comerciantes (…)” 

“O comerciante não há-de ter dívidas. Claro que tem de ter, se é lá (Lotaçor) eu vou buscar o meu produto, se é lá que tenho um crédito. É preciso ter em atenção que estes créditos são negociados. Aliás, é também público que hoje em dia quando um comprador excede o crédito, é-lhe cortada a compra em lota com bastante frequência”, realçou Pedro Melo.

“As coisas são assim: Quando eu não consigo cobrar a jusante (junto dos clientes), o meu crédito é cortado a montante (na Lotaçor). O que tem acontecido é isto. Nesta fase, temos ilhas, por exemplo, em que há três comerciantes a comprar pescado e há dias em que aparece só um porque os outros têm o crédito cortado”, referiu.

Pedro Melo salientou, em sequência, que até “há bem pouco tempo, antes do ‘boom’ do turismo, os maiores créditos que tínhamos eram da restauração e hotelaria na Região. O maior operador em São Miguel, que é o Arruda da Ribeira Grande, foi à vida porque o seu mercado não era a exportação. Era o mercado regional e quando começou a ter dívidas na ordem dos 180 dias, dos 200 dias, de um ano, e um ano e meio, chegou a um ponto em que não conseguiu exercer mais a actividade”. 

“É preciso perceber que do lado de cá (comerciantes de pescado) não são facilidades. O que nós temos aqui é uma economia de escala e temos 13 indivíduos nesta Região que compram 80% do peixe. Têm um trabalho a ser feito. Não estão aqui contra nada e contra ninguém”, salientou.

Na opinião de Pedro Melo, os comerciantes “não mandam nos preços” do pescado. “Quem manda são os mercados. Quando se fala aqui na questão do preço, o Governo tem falado em valorização. Ora, a valorização tem um limite e qual é este limite? Aquilo que todos nós, como consumidores, podemos pagar, nos Açores e lá fora. E este limite está já a ser atingido. E em algumas espécies já foi ultrapassado. E, portanto, é preciso ter cuidado com estas coisas. O que temos de tentar aqui é um equilíbrio”.

Pedro Melo deixou uma crítica ao que considerou um “excesso” de regulamentação na fileira do pescado na Região e deu um exemplo: “O goraz conheceu três portarias o ano passado entre o final de Dezembro e meados de Janeiro. Numa delas estivemos presentes nas negociações e alterações. No princípio de Janeiro dissemos aos clientes que não há goraz durante um mês e meio, até 15 de Fevereiro. A meio de Janeiro já se podia capturar o goraz e ninguém nos informou da situação. Soubemos através da comunicação social (…). Esta mudança constante de portarias desestabiliza os mercados”, concluiu.

 

Descargas por fazer em Ponta Delgada devido a navios de cruzeiro

Simão Neves, da ‘Azorfisk’, presente no encontro com os jornalistas, chamou a atenção para a pouca mobilidade no actual porto de Ponta Delgada quando operam, ao mesmo tempo, três navios de cruzeiro. “Na semana em que estiveram vários navios cruzeiro em Ponta Delgada, as descargas ficaram atrasadas e as descargas ficaram atrasadas porque o barco das mercadorias não pode atracar, o que também atrasou a carga do peixe para exportação. E os clientes lá se foram e disseram ‘esta semana já não queremos peixe’. E o peixe ficou todo nas câmaras frigoríficas”.

O empresário admitiu também que existem comerciantes hoje em dia na Região que, “infelizmente, fazem isto: Compram o peixe a preços mais elevados para os outros não comprarem. E muita da subida do preço desde Julho do ano passado até ao fim do ano teve a ver com isto: A adopção de estratégias para que o outro não comprasse porque sabia que era o dia em que o outro tem de fazer a tabela para apresentar. E foi isto que criou uma subida artificial do preço do peixe em lota que não tem a ver com o suporte de qualidade do peixe”.

 

Consórcio MAIS vai voar com cargueiro entre Ponta Delgada e Lisboa

O Secretário-geral da Associação de Comerciantes de Pescado dos Açores, Pedro Melo, anunciou ontem, num pequeno-almoço com jornalistas, que o consórcio MAIS Air Madeira, vai iniciar dentro de duas a três semanas, a operação de um avião cargueiro entre Ponta Delgada e Lisboa para o transporte diário, 5 dias por semana, de seis toneladas de mercadorias.

Esta operação tem vindo a ser concertada pelo consórcio empresarial madeirense de aviação, tendo como principal parceiro nos Açores a Associação de Comerciantes de Pescado mas, estando aberto a outras parcerias na Região. 

A concretizar-se esta operação, os comerciantes de pescado ficam com mais espaço para a venda de peixe no mercado europeu, sobretudo em Portugal continental e Espanha, mas também para outros mercados a partir da capital portuguesa.

Ficam criadas oportunidades para os comerciantes de pescado poderem entrar em mercados mais exigentes onde os clientes “querem ter acesso ao peixe sem falhas”.

Poderá ficar resolvido o problema de escoamento de peixe para o exterior da Região, mas permanecem as dificuldades no mercado interno.

Pedro Melo explica que o turismo “passou a encher os aviões inter-ilhas. Cada vez mais as pessoas viajam com bagagem e enchem os porões e o espaço para a carga começa a escassear”. E, a propósito, dá um exemplo: “No Natal do ano passado, houve uma empresa dos Açores que comprou 900 quilos de goraz nas Flores a um preço de 37 euros o quilo. Eram 33 mil euros de custo. O peixe levou três dias a sair das Flores. E o empresário perdeu o negócio. Perdeu o cliente e teve de encontrar outro para vender o peixe a um preço mais baixo”. O consórcio MAIS Air Madeira’ está a assegurar já uma operação de um avião cargueiro entre o Funchal e Lisboa com um avião ‘ATR 72 – 300 F’, com ligações diárias de Terça-feira a Sábado. Mas este poderá não ser o avião que vai operar entre Ponta Delgada e Lisboa.

O consórcio, segundo se lê no seu site, “nasce de uma partilha de vontades entre a companhia de avião espanhola SWIFTAIR, com forte implementação nos arquipélagos das Canárias e Baleares, do broker de aviação ALS Aviation & Logistics Solutions, especializado em projectos de logística aérea, e da empresa de logística madeirense, LOGINSULAR, a qual detém “um profundo conhecimento do mercado local, onde se afirma pelo profissionalismo da sua oferta”.

Fonte: Correio dos Açores

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