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“É preciso incutir nos açorianos a noção de risco provocado por tempestades tropicais e furacões e uma cultura de adaptação”

“É preciso incutir nos açorianos a noção de risco provocado por tempestades tropicais e furacões e uma cultura de adaptação”

Devido ao Super ‘El Nino’ o anticiclone dos Açores anda muito irrequieto e a Primavera vai estar instável, prevê Félix Rodrigues no Dia Mundial da Meteorologia

Correio dos Açores – Quando se fala no Dia Mundial da Meteorologia, o que lhe vem à memória?
Félix Rodrigues  (Especialista em climatologia) – Mau tempo. Tal pensamento está provavelmente associado às finalidades da própria meteorologia que visa a previsão do estado do tempo. Se o tempo estivesse sempre agradável, não haveria necessidade de previsão meteorológica. Assim sendo, a meteorologia surge para evitar as perdas agrícolas e minimizar os riscos de vida e de perda de bens da população em geral.
Uma vez que clima e meteorologia não são exatamente a mesma coisa, mas é com base nos dados da segunda área que prevemos o clima do futuro, surge-me de novo e automaticamente o conceito de “mau tempo”. Esse segundo pensamento resulta do facto de estarmos num período conturbado da nossa história, com a ameaça das alterações climáticas que, em nenhum dos cenários propostos, se augura bom tempo para um futuro mais distante. Nesses cenários, incrementar-se-ão os eventos meteorológicos extremos, ou seja, o mau tempo.

CA – O designado anticiclone dos Açores anda muito irrequieto. Que razões levam a esta inquietude?
FR – É pouco usual o anticiclone dos Açores andar acima e abaixo, a leste e a oeste do Arquipélago dos Açores, pois trata-se de um centro de altas pressões semi-permanente localizado a sul do Arquipélago dos Açores, nas latitudes subtropicais também conhecidas como as latitudes cavalo. Este ano (2015/2016), o ano de um Super El Niño, provocou um aumento da pressão no Mediterrâneo e, como tal, fez oscilar mais a posição do nosso semipermanente anticiclone. Tal fenómeno, que ocorre com o aquecimento das águas do Pacífico, incrementa o número de ciclones no Atlântico.

Os Açores vão ter uma primavera instável

CA –Que Primavera vamos ter?
FR – É muito difícil fazer previsões meteorológicos a prazos tão alargados como o que se refere. No entanto, todos os modelos indicam que o El Niño tenderá para a neutralidade até finais da Primavera e início do Verão. Tal situação poderá levar a que possamos ainda ter, nesta Primavera, alguma instabilidade atmosférica com alternâncias entre períodos de chuva, provavelmente com um ou outro evento mais intenso, e céu coberto com nuvens, alternando com dias de céu aberto ou com pouca nebulosidade.

CA –A meteorologia para si é uma paixão?
FR – Eu não sou meteorologista, tenho especialidade em poluição atmosférica, por isso, necessito de recorrer, com frequência, à meteorologia porque uma e outra área do conhecimento acabam por estar interligadas. Em termos científicos vivo sempre num dilema: satisfeito por ter dados de poluição e preocupado quando temos um evento de poluição. Parece ser um contrassenso, mas sem dados não se faz ciência, mas quando se os tem não é bom para a saúde.
A investigação tem muito mais de paixão do que de profissão, mas também é verdade que se não fosse uma profissão seria difícil sobreviver só com a investigação.

Os amadores da meteorologia que prevêem o tempo olhando para o céu

CA –Quando se queria saber que tempo faria nos dias seguintes, procurava-se pessoas de mais idade que olhavam para o céu e faziam uma previsão quase certa. Com as alterações climáticas, os mais idosos perdem mão da meteorologia?
FR – O conhecimento empírico, apesar de não devidamente testado pelo método científico, pode produzir resultados corretos nalgumas situações. Ao longo dos séculos, as pessoas foram observando os fenómenos atmosféricos e estabelecendo relações com o tempo que ocorria no dia seguinte. Algumas dessas relações estão fisicamente corretas, mas de facto, a maioria dessas previsões tem elevada probabilidade de falhar. Mesmo hoje em dia, com a tecnologia que se possui, falha-se na previsão de pequena escala, mas acerta-se a uma escala maior. As alterações climáticas apenas acentuarão a intensidade dos fenómenos meteorológicos, mas a sua previsão diária não será afectada, quer se a faça com recursos a equipamentos ou tendo por base correlações.

CA –Há alguns açorianos que são meteorologistas amadores. E quase todos os residentes dos Açores vivem preocupados com o estado do tempo e procuram fontes para estarem informados sobre o tempo que vai fazer nos dias seguintes. Nas atuais circunstâncias, há margens de erro nas previsões meteorológicas oficiais? Em que dimensão?
Respondi um pouco a essa questão anteriormente. Há sempre um erro associado à previsão meteorológica. O maior erro está relacionado com a escala da previsão. Por exemplo, consegue-se prever, com exatidão, se vai chover no Grupo Oriental do Arquipélago dos Açores, mas é muito difícil prever, com exatidão, se choverá no Nordeste. O erro diminui se recorrermos a tecnologia moderna como, por exemplo, radares meteorológicos. Os Açores necessitam de radares meteorológicos para garantir uma maior previsibilidade meteorológica bem como uma maior segurança das populações e diminuir o risco de percas agrícolas. Dada a variabilidade do tempo no Arquipélago dos Açores, os açorianos, mais do que os continentais, especialmente porque vivemos da agricultura, pesca e turismo, necessitam de saber o estado do tempo. O mau tempo terá, como é óbvio, impactos negativos nas três atividades mencionadas, daí que também haja uma tendência para a “meteorologia amadora”.

“É a falta de visão” que faz com que os Açores não tenham radares meteorológicos

CA –Como comenta o facto de os Açores não terem ainda um radar meteorológico?  Este facto coloca-nos na ‘idade da pedra’ da meteorologia? Quer comentar?
FR – A falta de radares meteorológicos nos Açores deve-se a vários fatores: Falta de visão (pois os radares não são forçosamente uma perda de dinheiro, são um investimento que pode ser rentável pelos serviços que poderiam ser prestados à população dos Açores mas também a quem navega nas nossas águas) e à falta de empenhamento político de quem elegemos e nos representou ou representa.
Não estamos na “Idade da Pedra” porque, felizmente, temos profissionais nos Açores empenhados e capazes de, com os meios que temos, fazer previsões adequadas. Quando falham, normalmente é porque foram precavidos.

CA –Com as alterações climáticas, os Açores vão ser uma região de tempestades tropicais e de furações. Estamos minimamente preparados para nos precavermos de situações extremas como estas?
FR – Nem nós nem ninguém está devidamente preparado para fenómenos meteorológicos extremos. Precisamos de começar a incutir na população a noção de risco e promover uma cultura de adaptação a esses eventos.

CA –Tendencialmente, vamos ter curtos períodos de muita chuva e verões mais quentes. Não se devia estar a planear o futuro no sentido de as entidades governamentais açorianas garantirem água, a todos os níveis, para anos mais secos?
FR – Tal como referi anteriormente entendo que devemos começar a adaptar-nos às alterações climáticas e aos eventos meteorológicos extremos. Isso tem custos, mas é muito mais fácil quando se planeia a médio e longo prazo. Caso não o façamos, arriscamo-nos a estar constantemente a gerir crises. Também é verdade que não podemos guardar a água toda que chove naas nossas ilhas, mas precisamos garantir que temos “stokes” de água para períodos cada vez mais longos.

CA –Para onde caminhamos em termos meteorológicos?
FR – Se a questão se refere a aspetos técnicos, caminhamos no sentido da melhoria das previsões meteorológicas, pois a tecnologia de satélite está cada vez mais evoluída. Se a questão é colocada no sentido do “estado do tempo”, caminhamos no sentido de “estados do tempo” menos confortáveis.

CA –Tem algo mais a acrescentar que considere relevante?
FR – Gostaria apenas de referir que Açores e meteorologia são a nível de Portugal e da Europa praticamente sinónimos. A meteorologia mundial deve muito à posição do nosso arquipélago, constituindo-se ainda, estas nove parcelas, locais únicos no mundo, para o estudo do clima e dos fenómenos atmosféricos.  A meteorologia nos Açores continua ainda a ter um enorme potencial científico que, sendo aproveitado, se pode traduzir não só em “turismo científico” mas também em investigação de excelência.

Fonte: Correio dos Açores

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