Social
Embarcação «Mar profundo» marca a entrada da Nautiber na ciência

Embarcação «Mar profundo» marca a entrada da Nautiber na ciência

Embarcação para fins científicos irá testar tecnologia de ponta desenvolvida em Portugal. Lições aprendidas pela Nautiber vão permitir que o estaleiro algarvio concorra neste nicho especializado

Chama-se «Mar Profundo» foi lançado à água nos estaleiros da Nautiber, na margem do Guadiana, em Vila Real de Santo António.

Terá por missão testar novas tecnologias na área das ciências marítimas, como robots, sensores e veículos submarinos não tripulados.

O novo navio será utilizado sobretudo pelo Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência (INESC TEC) da Universidade do Porto e pelo Centro de Investigação Tecnológica do Algarve (CINTAL) da Universidade do Algarve, mas também por outras entidades académicas.

A construção demorou cerca de um ano, em plena pandemia, e a Nautiber, empresa de construção naval algarvia também aprendeu algumas lições, segundo explicou o responsável Rui Roque aos jornalistas.

«Esta embarcação é muito importante para nós porque pode abrir-nos outros mercados que até agora, sem executar e sem fazer algo assim, possivelmente, não teríamos acesso», disse.

«Esta oportunidade que o INESC TEC nos deu é fundamental para a nossa indústria, pois criámos um produto específico que é vendável lá fora. Já tínhamos feito outros trabalhos, mas não com uma embarcação tão especializada. É a nossa entrada no segmento da ciência», disse.

Em termos tecnológicos, «foi um desafio que nos obrigou a criar novas competências e novo conhecimento. Foi um trabalho de equipa entre o INESC TEC, o nosso estaleiro e todas as outras entidades envolvidas», acrescentou.

Rui Roque não escondeu que a pandemia de COVID-19 foi um contexto desfavorável que criou dificuldades acrescidas ao projeto. «Foi. Neste momento, debatemo-nos com falta de equipamentos, falta de material, custos muito mais elevados de aquisição. É uma consequência de toda esta situação. Mas nunca paramos, fomos sempre resolvendo os problemas. Houve essa resiliência e acho que é o que todos nós temos de tentar fazer».

O «Mar Profundo» ainda não está pronto, falta a instalação de computadores e outros meios de apoio à missão que se destina. E que missão é essa?

Respondeu Eduardo Silva, professor do Instituto Superior de Engenharia do Porto (ISEP). «Esta embarcação vai-nos permitir dar um salto muito grande. Não é um navio oceanográfico, mas é uma embarcação que nos vai permitir desenvolver tecnologia para o mar, para testar se aquilo que fizemos em tanque no laboratório está ou não, funcional para a função que foi projetada».

Silva refere-se a robots do tipo AUV (Autonomous Underwater Vehicle) e ROV (Remotely Operated Vehicle) para a exploração dos recursos da plataforma marinha, assim como vários tipos de sensores.

O «Mar Profundo» terá «computadores a bordo, um sistema de comunicação e duas plataformas de acesso ao mar. Terá também uma grua e plataforma móvel. Estamos a fazer experiências com satélites para o fundo do mar. Trabalhamos em projetos para a mineração de mar profundo. Com este navio podemos testar se os robots conseguem localizar e chegar a esses recursos».

Quando estiver pronto e equipado, o navio deverá entrar ao serviço em setembro. «Isto é um navio que deverá trabalhar com o mar em estado 4. Em Portugal, isso acontece durante cerca de 150 dias úteis durante o ano.

Tem 19 metros por 7 de boca, «dá para levar oito investigadores a bordo, mais três a quatro tripulantes. Tem uma autonomia até três dias no mar antes de voltar a um porto».

Apesar de ter propulsão Diesel tradicional, tem condições de funcionar de forma silenciosa com motores elétricos, condição necessária à realização de experiências com sensores acústicos. «Pode estar nesse modo até 20 horas de seguida, com todos os sistemas operacionais, sem necessidade de geradores», acrescenta.

A escolha da Nautiber para este projeto foi feita por concurso público. Além do caderno de encargos e das especificações da embarcação, o principal critério foi a «leveza dos custos de operação» que permite ao INESC TEC fazer o máximo possível com o orçamento disponível.

«Esta estrutura irá também ser partilhada com outros organismos. Queremos que outros também sejam beneficiários. A ciência vive muito da partilha e da troca de informações e portanto queremos chamar vários parceiros para poderem usufruir desta embarcação que nós desenvolvemos», concluiu Eduardo Silva.

A Nautiber emprega diretamente 70 pessoas e outras 10 subcontratadas. Em média, a empresa entrega 10 embarcações por ano, o que representa uma faturação média de 7 milhões de euros.

Apesar da incerteza e da crise que assola a economia mundial, o estaleiro tem em mãos várias encomendas. «Temos 14 embarcações em construção, das quais, oito são para exportação e as restantes para o mercado nacional», disse Rui Roque aos jornalistas.

Angola continua a ser um cliente preferencial. «Sim, é um mercado fundamental. Temos oito embarcação alocadas e há continuidade nesse trabalho. Estamos também a fazer uma embarcação polivalente para Moçambique».

No que toca ao mercado regional, a pandemia veio travar o segmento das marítimo-turísticas, mas ainda assim, o estaleiro não deixou cair as encomendas dos operadores.

«Tivemos de procurar soluções e ter um espírito de cooperação com esses agentes económicos. Não estamos sozinhos, precisamos todos uns dos outros. Temos de estar unidos neste esforço. Acho que o Algarve vai passar uma fase muito complicada e é preciso que se perceba isso de uma vez por todas. Se há região afetada com tudo isto é o Algarve que vive sobretudo do turismo. O Algarve tem índices fiscais muito bons, sempre contribuimos muito para o país, está na hora do país também retribuir isso», concluiu.

A cerimónia de «bota-abaixo» contou com a presença de Manuel Heitor, ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior; José Apolinário, presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Algarve; José Manuel Mendonça, professor catedrático no Departamento de Engenharia e Gestão Industrial da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto e presidente do Conselho de Administração do INESC TEC; de Paulo Águas, Reitor da Universidade do Algarve; e de Helena Pereira, presidente da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) que é madrinha do «Mar Profundo» e também ela uma marinheira com curso de Patrão de Costa.

A embarcação foi financiada pelo Fundo Europeu de Desenvolvimento Regional (FEDER), através do Programa Operacional Regional do Norte, e pela FCT através de fundos nacionais.

Fonte: Barlavento

Deixe um Comentário