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Está a ser consumido em restaurantes dos Açores peixe que provoca náuseas e tonturas momentâneas

Está a ser consumido em restaurantes dos Açores peixe que provoca náuseas e tonturas momentâneas

 Está a ser vendido em alguns restaurantes dos Açores o peixe conhecido como ‘Escolar’ ou ‘Peixe-Chocolate’ que, se não for bem confeccionado, provoca náuseas e tonturas aos consumidores.
 Alguns frequentadores de restaurantes de São Miguel já procuraram a direcção e redacção do ‘Correio dos Açores’ a descrever situações de mal-estar com vómitos em refeições em dias diferentes, nomeadamente, em restaurantes de Ponta Delgada, depois de consumirem aquele tipo de peixe que surge na ementa isolado ou em espetadas.
 O ‘Correio dos Açores’ desenvolveu uma série de diligência e chegou à conclusão de que o ‘Escolar’, com a designação científica já mereceu um esclarecimento da Direcção Geral de Veterinária do Ministério da Agricultura e está ‘debaixo do olho’ da direcção regional dos Recursos do Mar.
 O biólogo marinho Filipe Porteiro, que é o Director Regional dos Recursos do Mar, confirmou ao nosso jornal que,  “de facto, essa espécie tem particularidades que exigem um tratamento especial”.
O que se passa, explicou, “é que estes peixes não metabolizam alguns esteres. Estes acabam por se acumular e tornar tóxicos para o consumo humano, já que nós também não os metabolizamos”.
Elucida Filipe Porteiro que a restauração, que não é consumidora final, é considerada no âmbito da regulamentação sobre higiene dos géneros alimentícios, comércio retalhista. “Ou seja, refere, “deverão também estes operadores informar convenientemente os clientes (consumidor final) do risco relacionado com a presença de substâncias com efeitos gastrointestinais adversos (na ementa, por exemplo).”
 É sublinhado, contudo, que o poder tóxico destes alimentos “é amplamente reduzido se forem bem confeccionados”, isto é, “o peixe deve ser preparado e confeccionado de tal modo que a maior parte das gorduras existentes ou libertadas no processo possam ser separadas da porção a consumir; os líquidos resultantes da cozedura ou de outra forma de confecção não devem ser ingeridos nem utilizados para molhos.”

União Europeia impõe restrições
 Um regulamento da Comissão Europeia de 2005 sublinha que “os produtos da pesca frescos, preparados e transformados pertencentes à família Gempylidae, em especial Ruvettus pretiosus e Lepidocybium flavobrunneum,  (o escolar) só podem ser colocados no mercado acondicionados ou embalados e devem ser adequadamente rotulados de modo a fornecer informações ao consumidor sobre as formas de preparar/cozinhar e sobre o risco relacionado com a presença de substâncias com efeitos gastrointestinais adversos. O nome científico deve acompanhar o nome comum no rótulo.»
 Este regulamento comunitário obrigou a Direcção Geral de Veterinária a esclarecer que “a interdição à colocação no mercado de espécies potencialmente tóxicas foi imposta em 1991 e hoje pode-se considerar satisfatório o nível de esclarecimento e cumprimento desse requisito no país”.
“Situação diferente”, acrescenta, “é a que decorre da restrição imposta à colocação no mercado de espécies da família Gempylidae” (peixe escolar).
As capturas, a comercialização e o consumo de espécies desta família – que podem atingir 2 metros e 60 kg – “são, no território nacional, pouco significativas, à excepção das Regiões Autónomas, designadamente dos Açores, onde assumem algum relevo”, confirma a Direcção Geral de Veterinária.
A comercialização destas espécies é permitida sob a designação comercial de ‘Escolar’, sendo também autorizadas as designações de “Chocolate” ou Peixe-chocolate”, confirma.
À luz do conhecimento actual e de acordo com o parecer científico sobre esta matéria adoptado pela Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos, em 30 de Agosto de 2004, o consumo destes produtos da pesca, designadamente das espécies Ruvettus pretiosus e Lepidocytum flavobrunneum, “é passível de causar efeitos adversos, especialmente diarreia e outros distúrbios de natureza gastrointestinal”.
Acrescenta a direcção geral de Veterinária que “há variações quanto à sensibilidade de cada indivíduo e não foi possível estabelecer uma correlação entre a quantidade ingerida e os efeitos produzidos. Os sintomas desenvolvem-se rapidamente e podem ser pronunciados, mas, por regra, não são de longa duração. Estes efeitos aparecem após a ingestão, devido à presença em quantidades assinaláveis de gorduras esterificadas acumuladas nos tecidos do peixe, gorduras que os humanos não têm capacidade para digerir e passam assim ao longo do tracto gastrointestinal produzindo efeitos purgantes. Não se trata, portanto, de substâncias tóxicas que são absorvidas”.
A direcção geral de Veterinária ponderou a situação e entendeu não adicionar outra regulamentação à comunitária de restrição à colocação no mercado de espécies da família Gempylidae (a do peixe Escolar).
Porém, prosseguiu a direcção geral, “mostra-se conveniente prestar esclarecimentos adicionais e promover uma adequada divulgação junto dos operadores, dos responsáveis pela execução dos controlos oficiais e dos consumidores”.

As exigências da Veterinária
Nesta perspectiva, a direcção geral de Veterinária destacou os seguintes pontos: 
“1. Atendendo ao que vem definido (Reg. CE n.º 178/2002, de 22 de Janeiro) como “colocação no mercado”, deve-se inferir que a informação acerca do produto, agora obrigatória, deverá acompanhá-lo ao longo de toda a cadeia de comercialização, isto é, desde a primeira colocação no mercado até ao consumidor final.
2. Principalmente nas primeiras fases de comercialização, em que normalmente os produtos estão acondicionados e não embalados (lota, mercado grossista), por estar mais limitada a menção das informações exigidas através da impressão em etiquetas ou rótulos, pode-se recorrer à sua menção nos documentos de acompanhamento dos produtos – esta é também considerada uma forma de rotulagem (DL n.º 560/99, de 18 de Dezembro).
3.Todavia, em alguns casos do comércio retalhista (peixaria, mercado retalhista), não se afigura adequada a existência da informação exigida apenas nos documentos de acompanhamento, dado que, desta forma, o consumidor não tem acesso à informação. É fundamental, portanto, que as informações estejam patentes e que cheguem sempre ao consumidor (letreiro, por exemplo).
4. A restauração não é consumidor final – é considerada, no âmbito da regulamentação sobre higiene dos géneros alimentícios, comércio retalhista. Por conseguinte, deverão também estes operadores informar convenientemente os clientes (consumidor final) do risco relacionado com a presença de substâncias com efeitos gastrointestinais adversos (na ementa, por exemplo).
5. As informações exigidas e a constar são de dois tipos: sobre a possibilidade de produzir efeitos gastrointestinais adversos (diarreia, principalmente) e sobre as formas de preparar/cozinhar (o peixe deve ser preparado e confeccionado de tal modo que a maior parte das gorduras existentes ou libertadas no processo possam ser separadas da porção a consumir; os líquidos resultantes da cozedura ou de outra forma de confecção não devem ser ingeridos nem utilizados para molhos).
Complementarmente, informa-se do seguinte:
7.A informação exigida na rotulagem é aplicável a todas as formas de apresentação deste produto da pesca (inteiro ou não, fresco, congelado ou transformado, simples ou incorporado com outros géneros alimentícios).
8. Para além da grande proporção de gorduras existentes no músculo que são responsáveis pelos efeitos adversos de natureza gastrointestinal, estas espécies de peixes são também ricas em histidina, como outras espécies de outras famílias mais comuns entre nós (como o atum, a cavala ou a sardinha). Por isso, alerta-se para cuidados ainda maiores com a conservação (higiene e temperatura), a fim de prevenir a ocorrência de intoxicações por histamina. 

Fonte: Correio dos Açores

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