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‘Pescatum’ quer continuar nos Açores “durante muitos mais anos” mas admite que é preciso aumentar a competitividade

‘Pescatum’ quer continuar nos Açores “durante muitos mais anos” mas admite que é preciso aumentar a competitividade

Desde finais de 2002 que o grupo espanhol ‘PescaMar adquiriu parte da empresa conserveira ‘Pescatum’ na ilha Terceira. Francisco Vicente Director Internacional da ‘Pescatum’, recorda que nessa altura, a ‘PescaMar’ aproveitou a oportunidade de entrar nos Açores, “um mercado típico de atum” que na Europa só existe na Madeira e nas Canárias: “Na altura tínhamos uma conserveira em Espanha, que estava sempre a comprar atum na Galiza, ainda que o atum não existia fisicamente nessa zona, mas é onde ficam os portos por onde entra o atum da União Europeia e de toda a parte do Mundo”. 

Inicialmente ficaram com 75% da empresa e desde 2006, 2007 adquiram a totalidade da ‘Pescatum’, que actualmente tem capitais espanhóis mas é “uma sociedade portuguesa”. Lembra que na altura em que apostaram nos Açores, “era uma oportunidade muito boa, porque aqui havia atum, havia uma fábrica de lombos – e nós também precisávamos de muitos lombos para fazer a nossa conserva em Espanha”.

Em jeito de balanço, refere que ao longo de todo este tempo “o atum tem anos melhores e anos piores e o que se passa é que muito do atum – para não dizer a maioria, depende sempre de como corre a safra do atum – temos que trazê-lo de fora”. Sobre a oscilação nas safras do atum, defende que apesar de haver “alguns anos com safras muito boas e espectaculares a experiência tem demonstrado que cada vez é mais difícil ao atum chegar ao mar dos Açores”.

Considera que há menos atum e isso tem-se confirmado nos últimos anos: “Já faz três, quatro anos, em que não temos um ano aceitável, bom. 2014 já foi um ano baixo, 2015 baixou mais e este ano acho que existe a possibilidade que ainda seja mais baixo do que no ano passado”. Mas, ressalva, “no mar nunca há certezas e de agora até Setembro, ou Outubro, podem acontecer muitas coisas mas este início não está a ser promissor, não nos parece que vá ser uma boa safra”.

O problema não é exclusivo dos Açores “na Madeira as quantidades também não são espectaculares e nas Canárias tão pouco”. Tem sido preciso ir para mais próximo do continente africano “já que o atum é um peixe migratório”. Há muitas explicações científicas sobre o que está a acontecer “mas nenhuma tem certezas absolutas”. Ainda recentemente, ouviu dizer que um dos problemas era que “a Madeira e as Canárias estavam lá a pescar em mancha e que não deixavam o atum subir até cá”, mas isso “são teorias e acho que não têm um argumento científico único”.

A confirmar-se este cenário, significa que “as fábricas dos Açores vão ter que importar atum do mercado comunitário, de fora, para conseguir continuar em funcionamento e a manter todos os postos de trabalho”. Sobre este último ponto sublinha a preocupação que existe com esses postos de trabalho, ocupados, “na sua maioria, cerca de 90%, por mão-de-obra feminina, e ainda por cima do sector primário onde é sempre mais complicado arranjar trabalho”. Diz que “estão muito contentes por terem mulheres açorianas a trabalhar na fábrica” e acredita que “podem ser muito mais”.

A importação de atum mantem as fábricas em funcionamento mas agrava os custos. Além disso, lembra que “os Açores, estando no meio do Oceano Atlântico numa posição um pouco isolada e tem uma insularidade típica, tenham que importar por exemplo o azeite, o óleo, as latas para as conservas, porque aqui não há e com o atum passa-se o mesmo”.
Considera que “não tem muita lógica ter uma fábrica conserveira para se aproveitar da mão-de-obra boa e especializada dos açorianos, se tens que trazer o atum de fora, pagando os custos, fazendo aqui as conservas ou os lombos e de novo ter que voltar a encher os contentores para mandar para o continente, porque o mercado açoriano é bom mas é pequeno”. Isto cria um “problema de competitividade em relação às fábricas do continente”.

“Temos que tentar reduzir os custos e cada dia sermos mais competitivos”

Apesar de tudo isto, Francisco Vicente garante que não estão a pensar fechar a fábrica na Terceira: “Pretendemos continuar durante muitos mais anos aqui”. Mas reconhece que é necessário “melhorar” a competitividade: “Temos que tentar reduzir os nossos custos e cada dia sermos mais competitivos”.

Por parte das administrações, dos governos, espera: “Têm que ajudar-nos – na medida das suas capacidades – para que possamos competir em condições iguais com as fábricas do continente. Há que ter em conta que na Europa, o atum está concentrado basicamente na Galiza, em Portugal continental, também á algumas fábricas em França e Itália e, depois, nos Açores”.

A partir daí, os Açores competem “com mercados de países que têm outro tipo de problemas, como sejam uma mão-de-obra muito barata, que pode ser da Tailândia ou do Sul da América, do Equador, que inevitavelmente faz com que tenhamos que nos esforçar muito mais, porque eles não só têm acesso directo ao atum como têm custos laborais muito mais baixos do que tem qualquer uma das fábricas europeias”.

Têm recorrido às linhas de apoio à competitividade do Governo Regional dos Açores: “Apesar de nunca serem suficientes – sempre achamos que se pode dar um pouco mais – não nos podemos queixar. A verdade é que o Governo Regional dos Açores tem essas linhas muito bem estudas e o apoio ajuda a tentar competir em igualdade de condições”.

No caso da ‘Pescatum’ garante que “desde há muitos anos” que se estão a “esforçar” para serem competitivos e a ideia “é continuar por aqui muitos anos, continuar a investir nos Açores – especificamente na Terceira que é onde estamos -, continuar a gerar riqueza e no mercado laboral poder continuar a contratar açorianos para trabalhar”.

Fonte: Correio dos Açores

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