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Genuíno Madruga // “É inconcebível como é que as pescas estão numa situação de penúria”

Genuíno Madruga // “É inconcebível como é que as pescas estão numa situação de penúria”

Qual a sua opinião sobre a situação geral da pesca nos Açores?
Na verdade, a situação da pesca e dos pescadores a nível regional encontra-se bastante complicada nesta altura. Analisando os rendimentos da pesca e dos pescadores têm vindo, ano após ano, a agravar-se. Chegamos a 2015 com uma situação bastante miserável em termos de capturas e proveitos da pesca. Sete mil toneladas não é nada. Isto ao longo dos anos tem vindo sempre a cair até chegar praticamente a bater no fundo. Com esta situação, a maior parte dos nossos armadores já não consegue sobreviver. Basta ver os barcos que se encontram para aí praticamente abandonados e outros em situação bastante grave, com pescadores a viverem tempos realmente bastante difíceis. E isto é um pouco incompreensível, na medida em que vivemos numa época em que os recursos do mar cada vez têm mais valor e é para aí que se tem de caminhar. Aquilo que me parece é que, na verdade, as pescas têm sido, ao longo dos últimos anos, o parente pobre da economia regional.

E a culpa é de quem?
Há vários fatores que contribuíram para se chegar a uma situação de quase penúria. É preciso ter em conta que, salvo em pequenas épocas, as pescas foram como um navio que navegou ao sabor dos ventos. Ou seja, nos anos 80, construiu-se a frota azul conforme sabemos, também se iniciou a renovação da frota artesanal, quase exclusivamente constituída por embarcações de boca aberta, mas passado isso pouco se fez ou nada. Não há um plano diretor, a curto, médio ou longo prazo, e os resultados são os que estão à vista.

O Governo Regional não tem adotado boas políticas para o setor?
Há muito que se diga à volta disto (…). Creio que o que devia ter sido feito há muitos anos – mas nunca é tarde para se principiar – era um plano diretor, ou seja, que as pessoas soubessem realmente o que vai acontecer daqui a um mês, um ano e dez anos. Isso não aconteceu e cada um faz mais ou menos aquilo que quer e, pronto, hoje chegou-se a essa situação. Os stocks, em algumas espécies – como seja o goraz e outras -, estão praticamente sobre explorados. Além disso, construíram-se embarcações quase sem rei nem roque. Moral da história: temos uma frota que não se sabe bem que frota é, não se sabe bem quantos pescadores temos e qual o respetivo grau de alfabetização, alfabetização essa cada vez mais importante. Não se pode fazer nada com pessoas cujo grau de alfabetização é aquele que todos conhecemos. Relativamente ao (pagamento do) Fundopesca, creio que está um bocado enviesado. Para já, deviam entrar aqui fundos comunitários que não estão a entrar. Aquilo que está a acontecer nesta altura está a ser, com alguma responsabilidade também das associações da pesca, mais ou menos para tapar buracos. O Fundopesca devia ter outra abrangência (…).

O Fundopesca é injusto para com os pescadores ao pagar-lhes metade de um salário mínimo quando não podem sair para o mar devido ao mau tempo? 
Não é o Fundopesca, é a mentalidade que está à volta disto. Parece-me que por aí é que tem de se principiar. Não é dar peixe aos pescadores que se revolve o problema da pesca, nem a dar dinheiro tão pouco. O dinheiro devia ser numa situação extrema e realmente as situações são extremas hoje porque, antes, não foi feito nada que acautelasse o nosso futuro. E se existe Fundopesca numa situação que considero enviesada, é pelo facto disto não ter sido devidamente acautelado. Ou seja, pescou-se sem se saber bem o que é que se estava a fazer, rebentou-se com o stock do goraz, há ilhas que estão em péssimas condições, como é o caso de São Miguel.

Quais as suas maiores preocupações em relação à pesca? 
A nossa Zona Económica Exclusiva é um milhão de quilómetros quadrados. É inconcebível como é que as pescas estão numa situação de penúria quando temos um milhão de quilómetros quadrados (de mar), sendo certo obviamente que só 2% dessa área é que tem condições por exemplo para a pesca do goraz, do cherne e de outras espécies. Mas no caso dos pelágicos como atuns e outras espécies – que mais ano menos ano sempre vão passando – o que é um facto é que isto não é devidamente aproveitado e depois as consequências estão aí. Creio que a grande mina dos Açores é o nosso mar, a terra também, mas segundo sabemos as coisas na agropecuária também não vão navegando com ventos muito favoráveis. E o nosso mar realmente tem grandes potencialidades, só que isto tem de ser devidamente aproveitado. Tem de se inventariar aquilo que há, mas ter em conta que não se pode apanhar tudo de uma vez, nem vender de qualquer maneira.

Que medidas deviam ser adotadas com urgência para o setor? 
Creio que para já uma medida que devia ser adotada era primeiro saber quantos somos, que tipo de embarcações existem, qual a respetiva área de atuação e o que se pode fazer com essas embarcações tendo em conta o futuro. Novas pescarias, melhoria das condições a bordo, de conservação, de transporte seria para já o que se impunha, para além de saber quantos somos, qual o grau de alfabetização e a idade dos pescadores. Sem estes elementos não se pode fazer grandes coisas porque se diz que há muitos pescadores, que há muitas embarcações, mas eu pergunto se isso realmente tem algum fundamento. Não sei (…) Fala-se num número que vai de 1200 aos 3 mil pescadores (…).

Nessas medidas novas o que caberia às associações e ao Governo Regional fazerem a favor da pesca? 
As associações e o Governo Regional devem estar no mesmo navio e a navegar no mesmo rumo. A nossa universidade já tem algum tempo de estudos à volta das pescas, já muita coisa foi feita e se se tivesse em conta muitos dos estudos que foram feitos, talvez a situação hoje fosse diversa daquela que é. No entanto, também é importante que, por parte de todas as associações da pesca, haja algumas iniciativas, porque na verdade os primeiros interessados são os pescadores e as respetivas associações, claro.

O que critica nas medidas que têm sido tomadas para a pesca? 
Creio que o problema mais complicado aqui é não saber bem para onde é que se caminha. Fala-se do mar, mas depois na prática as coisas às vezes não acontecem e quando acontecem às vezes não é na melhor direção e depois o resultado é – como eu digo – a situação de quase extrema penúria em que os pescadores vivem nos dias de hoje. Isto parece-me inconcebível. Eu acompanhei desde os primórdios a transformação das pescas (nos Açores) e hoje custa-me falar desses assuntos. Acho que se devia estar a falar era de uma situação diversa, não era desta de hoje. Vemos pescadores aí, noutras paragens, que até vivem razoavelmente e porque cargas de água é que aqui nestas ilhas havemos de ter uma quantidade de pedintes na pesca, de miseráveis, enfim. Isto é inconcebível.

A agricultura tem sido mais beneficiada em relação à pesca? 
Não sei se sim ou não, mas tudo indica que sim.

Isto significa que as associações da pesca não têm o poder reivindicativo da lavoura por não estarem suficientemente unidas para fazerem valer as suas aspirações? 
As associações da pesca já trabalham num meio bastante difícil. Deve-se ter em conta que os pescadores e os armadores são muito individualistas e depois isso reflete-se no trabalho. Claro que se houvesse por parte das pescas soluções mais organizadas, mais interventivas, se calhar a situação era diversa hoje com certeza.

Qual a sua opinião sobre as quotas estabelecidas pelo Governo Regional para a manutenção de espécies piscícolas, como é o caso do goraz? 
As quotas são uma forma de gestão dos stocks de uma determinada espécie. Há outras. Aquilo que acontece hoje nos Açores é uma aberração quanto a mim, uma vez que nos introduziram quotas da mesma forma como se faz para a sardinha, para o bacalhau e para outras espécies, como se a pesca aqui fosse igual. Ora, aqui os nossos fundos são diferentes, as espécies são outras e os meios de captura são outros também. Creio que se devia era adaptar a nossa frota aos recursos que temos e inventariar os recursos – creio que eles estão mais ou menos inventariados – e não como se tem feito, ou seja, dividir o mal pelas aldeias. Por exemplo, no meu caso, a minha embarcação tinha 6 toneladas para o ano todo de goraz e hoje tem menos de 50%, ou seja, nem chega a 3 toneladas e eu pergunto: como é que uma embarcação destas, que é uma pequena empresa – eu e todos os outros colegas – vai sobreviver com 3 toneladas de goraz para o ano todo. Embarcações que fazem esta pesca como é que conseguem sobreviver? Estas pequenas empresas deixam de ser economicamente viáveis e depois como é, vai tudo para o Fundopesca?

“O ATUM É O NOSSO OURO SÓ QUE ESTAMOS A VENDER COMO SE FOSSE FERRO”

A Região precisa de novas pescarias? 
Não é necessário inventar nada porque já sabemos as espécies que passam pelo nosso mar. O que era importante era vender pelo preço justo aquilo que pescamos. Isso é que era fundamental que acontecesse. Era preciso empregar dinheiro? Há fundos comunitários para isso. Não percebo porque é que isso não avança. Era preciso empregar dinheiro na comercialização, encontrar os sítios próprios para se vender pelo justo preço, arranjar os meios para se colocar lá o peixe. Isso é que era fundamental que acontecesse, não é dar dinheiro aos pescadores. É preciso criar condições para que a pesca viva dignamente nestas ilhas. Aí é que era preciso empregar meios.

E o papel da indústria conserveira? 
A indústria conserveira está falida, conforme sabemos. Esta indústria que ainda existe vem dos anos 50/60. A determinada altura, toda a gente queria ser sócio de uma fábrica de conservas ou de uma traineira e então construíram-se por aí várias fábricas de conservas – aquelas que sabemos e as outras que já lá vão – e bastantes traineiras, quer no Pico, em São Jorge, na Graciosa, em São Miguel, na Terceira. Talvez em todas as ilhas. Isto foi na época da abundância, só que depois essa abundância, aos poucos, foi desaparecendo, hoje há quotas na pesca do atum e as fábricas já não têm possibilidade de ter atum para a conserva (…). O bonito cada vez há menos. Já de há anos para cá que praticamente não se apanha bonito nos Açores e cada vez vai-se apanhar menos. Os navios-cerco da frota francesa, espanhola e americana que capturam peixe para as fábricas de conservas, apanham-no antes de ele chegar aqui. (…) As fábricas (de conservas nos Açores) estão falidas e ou se adaptam aos novos tempos (…) ou isto é manter o morto ligado às máquinas.

O que se pode fazer ao nível de novos mercados e de uma nova mentalidade? 
Só vou dar a título de exemplo o que acontece por outras paragens. Nos EUA, a albacora que aqui é vendido a 2/3 euros pode ser vendida aí entre 20 e 50 dólares o quilo; em França, segundo dados de 2014, o atum voador de 20 a 80 euros o quilo; no Japão, no mercado de Tóquio, o atum-rabilho em média de 150 até aos 3 mil euros o quilo. Quanto à albacora congelada, no mercado de Tóquio, pode andar entre os 100 e os 450 euros/quilo. É disto que estou a falar. Nisto é que era importante empregar dinheiro. Para muitas dessas embarcações e pescadores que hoje estão mal, se calhar com isto podia dar -se a volta à pesca nos Açores. Aqui é que era importante investir.

É necessário um avião cargueiro para expedir o peixe dos Açores para esses mercados internacionais? 
Com certeza, isto não pode ser malas de passageiros e peixe, e uma vez leva malas e depois não há lugar para peixe. Isto não pode ser. Esse peixe para ter valor tem de chegar lá com qualidade extra, senão é melhor não chegar lá (…). O avião é que tem de estar à espera do peixe e não é o peixe à espera do avião. Estamos a falar de números grandes. Não há mais peixe em quantidade para se pescar, aliás as limitações cada vez são maiores. É preciso é pescar qualidade acima de tudo e vender pelo justo preço (…) O atum é o nosso ouro, a nossa mina, só que aqui estamos a vender ouro como se fosse ferro. Esse é que é o grande problema. Se o peixe fosse devidamente valorizado, os pescadores não precisavam de Fundopesca nenhum.

A aquacultura está a dar os primeiros passos nos Açores. O que lhe parece? 
A aquacultura parece-me que é um erro tremendo nos Açores. Nós precisamos é de valorizar aquilo que temos, não é introduzir aquacultura. Se a gente vai introduzir aqui aquacultura, em terra ou no mar, vamos desvalorizar o nosso peixe, aquele que temos, porque o peixe de aquacultura não tem nada a ver… A qualidade Açores é que tem de ser mantida e ser valorizado aquilo que temos. É preciso ter em conta um outro aspeto: o peixe (da aquacultura) para ser criado precisa comer. Só pode comer peixe e vem de onde? O que vamos por para esses peixes comerem e como vamos sustentá-los? A aquacultura para os Açores não resolve nada. Muito pelo contrário, só vai prejudicar a atividade da pesca e os pescadores. A aquacultura é uma indústria, não tem nada a ver com a pesca. É outra coisa.

Fonte: Açoriano Oriental / Paulo Faustino / ACPA

 

 

2 Comentários neste artigo

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    Vamos ver a coragem sr MADRUGA ir contra a politica do governo será.

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    OLHO ABERTO

    MUITO BOM,mas ainda falta dizer muita coisa ,que governo fez por baixo da mesa.

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