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Goraz, boca-negra e outras espécies em risco de extinção no mar dos Açores

Goraz, boca-negra e outras espécies em risco de extinção no mar dos Açores

Há espécies marinhas no mar dos Açores que correm o risco de extinção, se não se tomarem medidas adequadas.

A convicção é do Presidente da Associação de Produtores de Espécies Demersais dos Açores (APEDA).

Jorge Gonçalves disse ao nosso jornal que “há que fazer uma redução do esforço de pesca nos Açores”, seguindo, de resto, os apelos dos estudos de biólogos do Departamento de Oceanografia e Pescas.

O goraz, boca-negra e cherne são alguns dos peixes mais ricos nesta situação, mas há outras espécies que merecem uma atenção mais preocupante por parte das autoridades.

“Há que tomar medidas”, avança Jorge Gonçalves ao “Diário dos Açores”, lembrando que este assunto já foi discutido no último Conselho Regional de Pescas, apesar de não ter havido consenso.

“As paragens biológicas são necessárias, para que as áreas marinhas biológicas sejam sustentáveis”, afirma.

O Presidente da APEDA diz que “estamos a viver uma fase complexa e que é preciso pôr travão para delinear espaços de pesca com paragens, áreas protegidas ou então retirar embarcações da actividade; tem que se fazer alguma coisa”.

Jorge Gonçalves lembra que a União Europeia já cortou aos Açores 25% de quota do goraz este ano e mais 25% para o próximo.

“Temos que estar preparados para isto; para não parar temos que pôr fim a capturas acessórias para manter a pescaria aberta”, adianta.

É neste sentido que, preocupados com o esforço de pesca no mar dos Açores, a Cooperativa Porto de Abrigo vai realizar amanhã, em Ponta Delgada, pelas 14h15m, no auditório da Direcção Regional de Apoio ao Investimento e à Competitividade, um encontro-debate sobre este assunto, analisando as implicações decorrentes da Portaria 74/2015 de 15 de Junho (defeso) e a alteração do Dec. Leg. Regional 9/2007/A (Pesca Lúdica).

Serão intervenientes Luís Resendes, da Associação de Amigos do Mergulho, Jorge Gonçalves, da APEDA, Liberato Fernandes, da Porto de Abrigo, e Miguel Pereira, como moderador.

O encontro inicia-se com a apresentação de um ponto de vista relativo a pesca/comercial/profissional e outro sobre a actividade lúdica-observação, seguindo-se um debate público para o qual estão convidados interessados e associações representativas dos diferentes interesses da Federação das Pescas e ONG`s do ambiente, assim como investigadores e entidades públicas com responsabilidades na implementação de política de gestão do espaço marítimo.

Serão abordados questões decorrentes da existência de diferentes órgãos com poder de gestão (de autonomia da Região de Soberania Estado e supra nacionais, União Europeia).

Os cientistas que conhecem profundamente o mar dos Açores têm vindo a alertar, há longo tempo, para o risco de extinção de algumas espécies se não forem tomadas algumas medidas de imediato.

Ainda há pouco tempo o director do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores, Hélder Silva, alertou para a necessidade se reduzir em cerca de um terço o esforço de pesca do goraz sugerindo, em simultâneo, que esta é uma das espécies que a Região deveria produzir em regime de aquacultura.

Hélder Silva, que falava na abertura do seminário “Valorização do Pescado dos Açores”, em Ponta Delgada, recordou que a captura do goraz nos Açores está sujeita a uma quota comunitária máxima de 1.100 toneladas por ano, mas que ainda assim será necessário diminuir o esforço de pesca para proteger os stocks.

Também há poucos meses o Governo Regional dos Açores propôs novas restrições à pesca do goraz na região aos parceiros sociais do sector que, no entanto, não reuniram consenso na reunião do Conselho Regional das Pescas.

A intenção do executivo açoriano era criar um período de defeso de dois meses para a captura desta espécie, que representa 7% das capturas nos Açores e 20% do valor de todo o pescado na região, atendendo à redução da quota atribuída pela União Europeia aos pescadores açorianos.

“Algumas associações mostraram reservas em relação à duração desse período de defeso e a Federação de Pescas dos Açores propôs que fosse criada alguma tolerância para as espécies acessórias do goraz, o que sempre permitirá um rendimento adicional”, explicou o Secretário Regional do Mar, Ciência e Tecnologia.

Fausto Brito e Abreu disse ainda, na altura, que em relação ao aumento do tamanho mínimo do goraz que pode ser pescado (outra proposta apresentada pelo Governo Regional), as associações de pesca também colocaram várias reservas.

“As associações das ilhas de São Miguel e de Santa Maria têm algumas reservas em relação a aumentar o tamanho mínimo do goraz, uma vez que dependem muito da venda do goraz mais pequeno, o peixão”, afirmou o Secretário Regional, que admitiu a possibilidade do Executivo “alterar a sua proposta”.

Não houve também consenso no Conselho Regional das Pescas em relação à proposta de distribuição das quotas de goraz por ilha.  “Estratégias para o sector que tem como objectivo central” aumentar o rendimento dos pescadores.

Gualberto Rita, novo presidente da Federação de Pescas dos Açores, disse também que as medidas propostas pelo Governo açoriano vão no sentido de melhorar o sector.

“Nós estamos de acordo com praticamente todas as medidas propostas pelo Governo. O que pedimos é que elas passem o mais rapidamente possível do papel à prática, porque essas medidas visam o aumento do rendimento dos pescadores”, sublinhou Gualberto Rita.

 

“Diário dos Açores” alertou para o problema

Num trabalho publicado pelo “Diário dos Açores” há alguns meses, esta questão do esforço de pesca e da redução de quota de algumas espécies já alertava para situações complicadas no sector.

Isto porque desde o ano de 2010 que os pescadores açorianos não conseguiam apanhar a quota de goraz que lhe era destinada pela União Europeia, daí que para os conhecedores do sector a nova redução nas quotas dessa espécie não fosse propriamente uma surpresa: tal como acontecia quando havia quotas para o leite, quando ela não era utilizada normalmente era repartida para outro lado qualquer.

Mas também não passou despercebido que da estratégia oficial do Governo Regional apenas transparecessem detalhes sobre a “negociação”, em que a posição final foi que “o corte da União Europeia é exagerado, mas mesmo assim inferior ao que era proposto”. Não se sabe ao certo qual era a redução defendida pelo Governo e o que se sabe é que a redução foi decidida em 25% para 2015 e 25% para 2016 – quando a proposta da União Europeia era de 34% para cada um desses anos.

O resultado das negociações é que a Região baixa de 904 toneladas para 678 em 2015 e 508 em 2016 (pela proposta europeia ficaríamos com 596 toneladas em 2015 e 393 toneladas em 2016).

Mas o que os números revelam é que desde 2010 que não conseguimos apanhar as quotas que nos eram atribuídas e que, mantendo a tendência dos últimos anos, a quota só será ultrapassada em 2016.

Este jornal escrevia então que o Peixão, que também é o “Pagellus bogaraveo”, tem essa designação enquanto é jovem, e o facto é que apanhá-lo nessa fase tem como consequência provável a redução da quantidade do Goraz. E não é apenas uma questão de mais peso: o goraz custa em média o dobro do Peixão, numa relação que em 2013 estava em cerca de 2,2 para 1: em 2013 o preço do Goraz foi em média de 12,75 euros por quilo, enquanto que o Peixão se ficou pelos 5,55 euros por quilo.

O facto é que, aparentemente, está-se a apanhar cada vez menos de ambos, mas a diferença em relação ao Goraz é muito mais acentuada. Até ao ano 2000 era comum apanhar-se mais Goraz que Peixão, numa relação que chegava a ser de 60/40; nos últimos 13 anos, no entanto, há apenas um em que a relação é de 50/50; e desde o ano de 2007 que é raro o Goraz representar sequer 40% das capturas. Nos últimos 2 anos o seu peso ameaça baixar dos 30%…

Apesar de haver uma corrente que sugere que parcialmente essa redução poderá dever-se a uma menor actividade por parte das embarcações de boca aberta – que nos últimos anos também se tinham dedicado à captura de Atum –, os números parecem gritar bem alto que há um problema com esta espécie. Na realidade, a redução de 34% preconizada pela UE parecia ir no sentido de uma forte protecção ao Goraz, nomeadamente através da limitação imposta às capturas de Peixão (pois numa situação de ter de se racionar o que se apanha, é óbvio que os pescadores iriam preferir a variedade mais cara).

Quando há 4 anos consecutivos estamos apanhar metade do que capturávamos nos 4 anos antes, e cerca de 40% da média dos 15 anos antes, parece evidente que alguma coisa está mal. Aliás, o Secretário Fausto Brito e Abreu reconheceu  que “há evidências científicas de que há uma redução do ‘stock’ produtor do goraz. Temos dados de capturas e de campanhas científicas, que o Governo dos Açores promove todos os anos, para a sua monitorização e que indicam que esta é uma espécie com que temos de ter alguma preocupação”. E afirmou que o governo “tem entretanto desenvolvido algumas medidas de protecção, aumentando a área de proibição do palangre de fundo, arte utilizada essencialmente para a captura do goraz, das três para as seis milhas, o que permite à espécie recuperar nas zonas costeiras, repovoando, posteriormente, os bancos de pesca”.

O seu desacordo com a opção europeia de redução mais radical reside no que entendeu ser “a necessidade de mais tempo para ver se as medidas adoptadas produzem o efeito desejado”.

Aparentemente conseguiu esse compasso de espera, mas se as medidas adoptadas pelo Governo, face a um cenário tão grave, são apenas essas, não é difícil imaginar que são insuficientes. É que os resultados provisórios de 2014 mostram já uma tendência clara: uma redução de 13% na apanha de Goraz, e de 19% no Peixão.

E a reportagem deste jornal, assinada por Manuel Moniz, concluía: Claro que a decisão final, numa situação extrema, até pode ser a proibição total das capturas. Afinal de contas, os açorianos não são propriamente alheios a estas coisas: praticamente extinguiram a Lapa mas ainda hoje continuam a deliciar-se com pratos como o “arroz de lapas”, que é feito com juvenis…

 

Polémica com pesca lúdica

A nova legislação sobre pesca lúdica nos Açores também está provocar grande polémica no sector, com o aparecimento de abaixo-assinados e petições de pescadores desta área, que estão contra as restrições.

Jorge Gonçalves, da APEDA, diz ao nosso jornal que compreende estas posições, mas “os tempos são outros”, adiantando não estar contra a pesca lúdica.

“Tem que haver preocupação com os recursos”, acrescenta, “se os profissionais estão sujeitos a regras muito fortes, os outros também têm que estar sujeitos”.

Só assim poderá haver um equilíbrio nas áreas marinhas e tornar o sector sustentável, conclui.

Fonte: Diário dos Açores

2 Comentários neste artigo

  1. Pescador Preocupado

    Estudos quais estudos? não vem a publico ou apenas não existem? O palangre nunca ira fechar ate os próprios armadores desistirem por iniciativa própria, e já agora para alem do goraz, boca-negra e outras espécies em vias de extinção os pescadores também vão no mesmo caminho. um bem haja a todos e com estas politicas os pescadores vão acabar na miséria se é que já não estão e não se apercebem.

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  2. PEREIRA

    SR.JORGE ENTÃO VAI-SE ENCONTRAR COM O CAMARADA LIBERATO???HHEHHHE….CONVIDEM TAMBÉM O JORGE RITA PARA UMA DEGOSTAÇÃO DE SABORES..HHEHHE…OLHEM E QUE TAL ACABAR DE VEZ COM O PALANGRE?HEM?……ANTES ERA TUDO UM MAR DE ROSAS..NÃO SABIAM QUE AS COISAS IAM ACABAR MAL?….E ESSES ESTUDOS A QUE SE REFERE???MAS QUAIS ESTUDOS??..PERGUNTE A UNS QUANTOS VELHOS O QUE SE DEVERIA FAZER OU O QUE SE DEVERIA TER FEITO QUE ELES LHE RESPONDEM E DEIXE ESSES ILUMINADOS DEPENDENTES DE SUBSIDIOS DIZEREM MAIS TOLICES.

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