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Rabo de Peixe // “Desisti da escola para ir para a pesca e agora nem tenho escola nem pesca”

Rabo de Peixe // “Desisti da escola para ir para a pesca e agora nem tenho escola nem pesca”

O “Coração do Oceano” chega ao porto de Rabo de Peixe com alguns quilos de congro, abrótea, rocaz, pargo. “Não correu muito bem”, refere o mestre da embarcação Acácio Palrão que com apenas 32 anos já comanda o barco que é do pai, Manuel Cabral Palrão que teve de abandonar a arte por problemas de saúde. Mesmo assim Manuel Cabral Palrão vai acompanhando as operações em terra e orientando, com olhos sabedores, o preparar da isca junto às casas de aprestos.

O “Coração do Oceano” é um barco recente, construído em 2001, e está nas mãos de Manuel Palrão há oito anos a servir a família. Ali trabalham 13 pessoas, quase todos familiares do proprietário, que assim também vai dando emprego aos filhos. Mas Acácio Palrão diz que as coisas na pesca não estão boas para quem precisa de sustentar uma família e confessa que “está cada vez pior”.

O jovem diz que cresceu no mar e “sempre gostei do mar” e por isso a vida de pescador foi a primeira opção quando começou a pensar num trabalho, ainda novo. Aos 12 anos abandonou a escola para seguir a arte do pai porque “nasci na pesca” e confessa que “aqui não há outra coisa para fazer sem ser a pesca”. No entanto, Acácio Palrão admite que desistiu da escola para ir para a pesca, para ajudar os pais, mas agora “ficamos sem escola e sem a pesca porque esta vida está difícil”.

Desiludido com os fracos rendimentos que agora se tiram da pesca, o jovem confessa que “se o barco não fosse do meu pai eu ia para outra vida”. Outra vida que seria longe de Rabo de Peixe e longe dos Açores. “Ia trabalhar para os Estados Unidos. Pensava em emigrar”, confessa ao acrescentar que este ano já foram bastantes os que emigraram dali em busca de outras paragens. “Se pudessem ir mais, iam mais, mas a lei também aguenta as pessoas senão já tinham emigrado mais pessoas”, principalmente pescadores que vêm o seu ordenado reduzido a 20 euros por cada dia de trabalho.

“Os Açores já deram o que tinham a dar, agora só há fome para a pesca”, confirma Acácio Palrão que explica que “mais de 80 por cento dos pescadores daqui estão a passar dificuldades”. Além disso, “são quase tudo famílias que trabalham nos barcos e se falta para um falta para todos” e Acácio Palrão confessa que já não podem levar mais ninguém no “Coração do Oceano” porque “já está cheio”.

Até há quem queira trabalhar, admite o mestre da embarcação, mas “não podemos pegar porque não se ganha nada e com mais trabalhadores não dá mesmo nada. Está mesmo complicado”, lamenta-se.

 

Vida difícil

Para dar um exemplo, Acácio Palrão diz que a embarcação que comanda saiu do porto de Rabo de Peixe pela meia-noite e regressou às 15 horas. Entretanto lançaram 4 mil anzóis distribuídos por 70 panas, gastando uma média de 350 a 400 euros por cada “lance” (saída para o mar). Fazendo contas à pescaria, Acácio Palrão diz que “aquilo que pescámos hoje nem dá 20 euros para cada homem. É muito complicado sustentar uma família assim” porque além do dinheiro para o gasóleo, para a isca e para as restantes despesas é preciso ainda pagar seguros e depois tirar para os trabalhadores.

“A pesca já não dá nada”, desabafa o jovem que adianta que “há poucos dias melhores e há muitos dias piores. Encontramos tudo pior na vida do mar, já não encontramos nada de bom”.

No entender de Acácio Palrão as dificuldades por que passa a pesca actualmente têm vários culpados. “Há mais pescadores na pesca e já não podemos além das três milhas das ilhas, só podemos pescar na nossa ilha, São Miguel. Como há muitos pescadores temos de pescar na nossa zona. Está muita gente encima do peixe e o peixe está a desaparecer”, refere o homem.

Acácio Palrão diz que além do pouco peixe que apanham os “botos atiram-se ao nosso peixe. Quando vão 2 ou 3 peixes num “trole” eles atacam. A lula é pouca e eles estão em cima dos luleiros, depois aborrecem-se e atacam outros peixes. Depois chegamos aqui e nós é que ficamos com as despesas para pagar”, adianta.

 

Futuro incerto

Acácio Palrão diz que não vê futuro para a pesca nos Açores. “Talvez possa a vir futuro para a pesca mas não vejo isso” e adianta que há cada vez mais jovens que não têm futuro noutras profissões e tentam a vida da pesca. “Os rapazes vão-se criando e vão para a pesca. Não há muito mais a fazer senão a pesca. Os pequenos vão para o mar”, dando assim seguimento a várias gerações de pescadores.

Relativamente ao novo porto de Rabo de Peixe, o jovem mestre diz que “está bem feito, está bom, está bom para os pescadores” mas reclama que “agora que vieram os portos novos já não há pesca” e aponta para uns quantos barcos que estão a “apanhar sol” junto à entrada do porto.

Agora, aquele porto “está melhor” porque antigamente era “muito complicado” entrar para descarregar o pescado. “Quando o mar mexia era complicado para entrar, quando se apanhasse o barco cá dentro, tínhamos de virar o barco depressa senão a onda fazia mal ao barco. Agora quando se apanha cá dentro o mar já não faz mal”, refere o jovem mestre, desiludido contudo com a pesca.

Fonte: Correio dos Açores

 

1 Comentário neste artigo

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    PEREIRA

    BEM PENSO QUE TÁ TUDO DITO QUANTO À PESCA NOS AÇORES…4000 ANZÓIS….AQUI FICA PROVADO QUE O PROBLEMA ESTÁ NA PESCA LÚDICA QUE ESTÁ CONFINADA A PESCAR COM 9 ANZÓIS…..OUTRA COISA….”RABO DE PEIXE”..QUEM DESIGNOU ESTE LUGAR POR RABO DE PEIXE SABIA DO QUE SE TRATAVA.

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