Social
Há pescadores de chicharro que têm vergonha de levar 20 euros por mês de salário para sustentarem a família

Há pescadores de chicharro que têm vergonha de levar 20 euros por mês de salário para sustentarem a família

Imagine sair todos os dias para trabalhar no horário nocturno. Gastar o combustível para chegar ao trabalho, estar toda a noite a trabalhar embora sem obter quaisquer resultados, e voltar para casa. Fazer esta rotina ao longo dos dias e chegar ao fim do mês e levar de ordenado 20 euros.
No entanto, não pode deixar de trabalhar porque tem esperança que consiga obter resultados com as suas idas sucessivas para o trabalho, mas de cada vez que sai para trabalhar vai gastando o pouco dinheiro que tem.
É este o dia-a-dia de um pescador de chicharro, que apesar de sair para o mar praticamente todos os dias, não consegue pescar o suficiente para fazer face às despesas. Esta é a queixa de vários armadores que se dedicam à pesca do chicharro e que, muitos, desde Outubro, só têm tirado 200 euros para cada homem durante todo estes meses.
A semana do Natal parece que “foi alguém que olhou por nós”, conta um armador que explica que durante essa semana em que saiu para o mar com a sua embarcação com 10 homens a bordo “conseguimos 130 euros para cada um”. Mas desde a semana de Natal que têm saído praticamente todos os dias para o mar “e nada”. Não conseguem trazer peixe para terra. “Não há”, garantem.
Na noite de Quarta para Quinta-feira, a embarcação com 10 homens a bordo saiu novamente para o mar. Mesmo assim conseguiram alguma cavala e sardinha, mas o chicharro “nem vê-lo”, garantem.
Do pouco peixe que trouxeram, o preço da venda em lota “nem é muito mau” e os armadores guiam-se pela aplicação informática que dá conta do preço de cada peixe vendido em lota, para informar que a cavala foi vendida a 1,70 euros o quilo, a sardinha a 1,20 euros. Já o chicharro, que até foi vendido a 4,60 euros, houve poucos barcos a descarregar na lota.
Um armador dá conta que apesar do preço da sardinha em lota até ser “razoável”, se nos próximos dias “houver tanta sardinha como na noite passada, o preço acaba por baixar para menos de um euro”. Aí, são as contas de cabeça que entram em acção. A menos de um euro, os cerca de 240 quilos de sardinha que foram entregues em lota ontem vão render menos de 240 euros. Com esse dinheiro terão de ser pagas todas as despesas, como gasolina para o camião, gasóleo para o barco e segurança social. Daí sobra cerca de 50 euros, “para dividir por 10 homens” que todos os dias saem para o mar.
“Gastamos gasolina, gasóleo, passamos a noite no mar e não apanhamos nada”, queixam-se os armadores e pescadores, que já passam por situações complicadas por estarem tanto tempo sem receber.
“Há pescadores a passar por situações dramáticas, em situações muito complicadas. Pessoas com casas para pagar, com despesas, com filhos pequenos e a levar para casa 20 euros por mês”, diz um dos armadores ouvido pelo “Correio dos Açores”, que questiona “porque é que os pescadores dos pequenos pelágicos não são abrangidos pelo POSEIMA? Porque não recebem como quem anda à pesca do atum?”.
Sobre a recente reivindicação do Sindicato dos Pescadores que reclama que seja activado o FundoPesca para fazer face às dificuldades com que se debatem os pescadores, os armadores com quem o Correio dos Açores falou referem que o FundoPesca já deveria ter sido accionado. “Quantos dias já passámos sem apresentar nada em lota? Quantos FundoPescas já foram activados?” e remetem para a legislação de atribuição daquele mecanismo de apoio criado pelo Governo Regional que fala em oito dias consecutivos de mau tempo ou 15 dias intercalados que impossibilitem descargas em lota. “Há quantos oito dias já não apresentamos nada em lota…”, reclamam os pescadores.

 

Licenças retiradas

Há ainda um armador que dá conta de uma outra situação que vai dificultar ainda mais a vida aos pescadores. É que todos os barcos de palangre de fundo que não tinham meios de segurança, como a balsa e a IPIRB (para serem accionados em caso de acidente), viram as suas licenças serem retiradas. Ou seja, “mais de cem barcos que ficaram sem licença” e cujos armadores não foram informados que lhes iriam ser retiradas as licenças. “Só quando receberam a licença em casa é que viram que não estavam autorizados a pescar a arte de palangre de fundo”, explicam os armadores.
Os pedidos de licença são feitos em Agosto para que a licença seja atribuída em Janeiro, mas nesses quatro meses ninguém avisou o armador que iria deixar de poder praticar palangre de fundo. “Tinham de precaver os armadores porque são mais de cem barcos que ficaram sem licenças. Tiram as licenças sem avisar ninguém”, denunciam.
Uma situação que “vai dificultar ainda mais a vida a quem anda no mar”, já que as embarcações que andam ao palangre de fundo “compravam muita isca, entre cavala e chicharros”. Ou seja, serão menos cem barcos a comprar isca e a rentabilizar a pescaria de quem se dedica ao chicharro.

“Tive de encaminhar os meus homens para a assistente social”

Um dos armadores que denuncia as dificuldades por que passam os pescadores confessa que antes do Natal teve de encaminhar os homens que trabalham consigo para uma assistente social e para o Banco Alimentar.
“São pessoas que têm famílias, que precisam de pagar as suas contas e também de comer. Que saem de casa de noite, enfrentam a bravura do mar, e chegam a casa sem um ordenado digno”, refere. Na época de Natal, altura de partilha e de solidariedade em que as mesas se querem mais fartas, “não tinha para lhes poder dar algum dinheiro”, revela o armador, que prefere o anonimato. “Fui com eles ter com a assistente social e fui pedir uma ajuda ao Banco Alimentar”, confessa ao acrescentar que alguns dos seus homens não têm qualquer tipo de rendimentos sem ser o que levam para casa da pesca.
“Foi uma forma de passarem o Natal com mais algum conforto”, explica o armador ao adiantar que “é uma dor de alma” ter de assistir a homens de família trabalharem todos os dias e não conseguirem ter um ordenado digno.

 

“Tenho vergonha de levar para casa 50 euros por mês”

Um casal com dois filhos, e com mais um a caminho, é mais um caso dos rostos das dificuldades por que passa a pesca nos Açores.
Em casa, o único rendimento advém da pesca e nos últimos tempos, ora o mau tempo ora a falta de peixe, não têm permitido que o rendimento seja muito. O casal vai-se socorrendo da família também ela maioritariamente de pescadores que, do pouco que tem, ainda vai distribuindo por quem precisa ainda mais.
O bebé que nascerá em breve vai ter muitas coisas emprestadas e o enxoval vai-se fazendo com muitas coisas em segunda mão que vão sendo cedidas por outros membros da família. “Temos despesas e não conseguimos sequer cobrir o que gastamos quanto mais ter lucro. A vida na pesca é muito difícil”, desabafa o pescador que diz que até tem “vergonha” de levar para casa pouco mais de 50 euros por mês. “Há renda de casa para pagar, há as crianças pequenas que andam na escola, e eu, mesmo não ganhando nada, vou ao mar todos os dias”, desabafa.

Fonte: Correio dos Açores

3 Comentários neste artigo

  1. blank

    é difícil de fato, mas quem não é da pesca como eu fica a pensar então quer dizer que exite pescadores a mais, mas depois o que vai fazer essa gente?’….mas também já ouvi dizer que os armadores ainda ganham dinheiro mas as companhas é que sofrem…porque é soldada para luz, para rede, para guincho, para o motor etc e no fim em são tantas soldadas que o pescadro da companha recebe é nada…mas posso estar enganado

    Responder
  2. blank

    pois é ,infelizmente o pescador ainda é visto assim como neste texto mostra …no resto dos países da uniao europeia isto nao acontece uma vergonha!!

    Responder
  3. blank
    Ze Ninguém

    E eles dizem: Vamos aumentar o rendimento dos pescadores.
    Cambada de idiotas !

    Responder

Deixe um Comentário