Social
Coisas do Corisco: O PREÇO DA INCOMPETÊNCIA

Coisas do Corisco: O PREÇO DA INCOMPETÊNCIA

A propósito da venda do atum nos Açores a barcos frigoríficos japoneses e panamianos

Mete-me muita confusão a política miserabilista com que, ano após ano, os socialistas vêm gerindo os interesses daqueles que são os grandes vectores que fazem girar a economia regional, como são a agricultura e as pescas.

E se é verdade que as competências dos principais responsáveis políticos devam muito ao saber e à inteligência, para agravar tudo, nunca tiveram a coragem de assumirem que quer agricolamente, quer nas pescas, os Açores não têm linha climatérica, técnica, funcional ou cultural, que fizesse com que César se abraçasse aos sucessivos PAC e PPC para abocanhar as ajudas comunitárias, não construindo, como se impunha, uma verdadeira política para a agricultura e para as pescas a nível regional.
E é muito fácil de se perceber tudo isso pois climatericamente não tendo os Açores nada a ver com o clima da Europa, nem com a aptidão dos seus terrenos, assim como com a sua cultura social, ter-se abdicado das nossas culturas geneticamente únicas, das nossas tradições culturais e da forma como produzíamos produtos de alta qualidade, só para que entrassem subsídios e dinheiros que nos vieram manietar a nossa economia agrícola e extinguir a nossa indústria agro-alimentar, foi um erro histórico, que pôs a Região nas ruas da amargura, importando quase tudo o que necessita para comer.
O mesmo se põe com as pescas em que não souberam discutir, como deveriam, a nossa política de pescas, a nossa fragilidade de ilhéus sem plataforma continental, as nossas raízes culturais, a riqueza das nossas espécies mais representativas, hoje praticamente extintas na Europa continental, mas ainda em boas condições de equilíbrio entre nós, assim como o aproveitamento daquilo que temos de grande valor em algumas das nossas espécies.
Embora nada me surpreenda nestes nossos governantes, não deixo de ficar menente com a afirmação do subsecretário das pescas, no jornal Correio dos Açores de sábado, 2 Junho, ao falar do grande interesse internacional pelo atum patudo pescado na Região.
E pergunto:
Só agora é que os políticos socialistas se aperceberam desse grande interesse internacional?
Já não o tinham quando construi 2 embarcações supermodernas, que me custaram uma pipa de massa, para tratar do atum a bordo e exportá-lo para os mercados sushi em Los Angeles e Tóquio, não o fazendo porque não me deixaram?
Só agora se aperceberam que levaram à falência os armadores, dito independentes, proibindo-lhes de exportar directamente esses atuns classificados para os mercados sushi ou então negando-lhes entrar com os atuns sangrados e esviscerados nas lotas, dando cabo da aposta dos mesmos, levando-os à insolvência financeira por serem obrigados a venderem o mesmo por preços de miséria à indústria açoriana?
Só agora, tão tarde meu Deus, é que o subsecretário das pescas se apercebeu do grande, diria enormíssimo, interesse internacional pelos nossos atuns da espécie patudo?
Só agora é que o subsecretário se apercebeu que sendo obrigados a vender o atum para a indústria ou nas lotas, inteiros, para consumo regional, por preços médios na ordem dos 2,5 euros/kg nos inibiam de vender aqueles que classificássemos por preços entre os 50 e 150 euros o kg.?
Só agora é que o subsecretário das pescas se apercebeu que bastaria classificar (e temos 4 classificadores nos Açores com curso tirado em Los Angeles) cerca de 10% do patudo capturado na Região para que, só esse valor superasse o total de dinheiro recebido por todo o peixe pescado na Região e vendido nas lotas ou entregue à indústria?
Será que o subsecretário ainda não pôs na cabeça a política erradíssima dos socialistas em descurarem tantas coisas importantes no sector dos tunídeos, enveredando por uma política de destruição dos altos valores que nos deveriam a nós pertencer?
Será entregando o peixe a bordo de embarcações estrangeiras que depois vão ganhar balúrdios com o mesmo nos mercados orientais, ou directamente em contentores frigoríficos a uma empresa madeirense para o comercializar fora dos Açores, com os altos valores que naturalmente possuem?
A apetência que o subsecretário fala sempre existiu e não foi por mero acaso que em 2 Semanas das Pescas esteve entre nós, como orador, o biólogo californiano Rex Ito, para nos falar da grande apetência dos californianos, principalmente os sushis bar de Los Angeles, pelo nosso patudo assim como nos mostrar, com perícia e saber, como se classificava e como se transformava um atum que se vendia, na altura, por 120 escudos/kg. num que, sangrado, trabalhado e devidamente preparado e exportado, valeria, pelo menos 15 mil escudos o kg, um autêntico milagre económico.
Saberá o senhor subsecretário que o mesmo Rex Ito esteve embarcado a bordo do atuneiro “Flor do Pico” para ensinar à sua tripulação o que se deveria fazer para que o atum fosse devidamente trabalhado após a pesca?
Que foi esse cientista que deu o curso de classificadores de atum a 4 açorianos em Los Angeles onde eu me incluí?
Nos Açores dada a qualidade do atum que regra geral se acerca das suas águas, nós nunca tivemos a capacidade, coragem e sabedoria de valorizar esse facto pois é nos Açores, regra geral, que aparecem os maiores patudos do Atlântico e mesmo do mundo; os maiores voadores do mundo, com pesos médios de cerca de 30 kg. ultrapassando a média de 6 kg do golfe da Biscaia, e dos cerca de 15 kg. da África do Sul; quanto aos rabilos, são também os maiores do mundo emparceirando com aqueles que se pescam na costa leste canadiana; há ainda a qualidade do bonito que cá se pesca e que transformado em fresco faz uma das melhores conservas de peixe do mundo, superfamosa na mesa dos italianos.
O senhor subsecretário das pescas nunca soube nada sobre os atuns, ou mesmo sobre as pescas em geral. Quanto a mim, aquilo que fez com perícia foi levar os armadores, dito, independentes, que investiram com o seu próprio risco na pesca do atum, à falência, numa protecção doentia aos armadores da frota azul que exploraram as embarcações cedidas pela Direcção das Pescas, sem pagarem um tostão ao Governo que neles confiou: só que o calote da frota azul ao erário público regional passa impune ao Tribunal de Contas que, por mais que me esforce, não percebo o seu silêncio.
Quem está fora das questões da pesca ao atum e leu o artigo publicado no Correio dos Açores do passado dia 2, certamente que não se aperceberá da nefasta política deste governo na destruição dos grandes valores que envolvem a pesca do atum nos Açores, assim como não perceberão nunca a forma desavergonhada como o subsecretário das pescas se atreve a afirmar, só agora, depois de tanto mal feito a muita gente, que o nosso atum é muito cobiçado a nível internacional.
Contudo mete-me alguma impressão que o articulista, quiçá o jornalista que mais sabe sobre a pesca ao atum, fale de preços e valores percentuais das receitas do mesmo e não fale, denunciando que a Região, todos os anos, pelo facto de não classificar o seu atum para exportação para o consumo em cru, perde em cada tonelada de peixe descarregado nos Açores cerca de 20 mil euros: de resto é fazerem-se contas para se ver os valores enormes perdidos pela Região face à desastrosa política deste governo em relação à pesca do atum, ao longo dos anos.

Autor: Valdemar Oliveira

Fonte: Correio dos Açores

10 Comentários neste artigo

  1. blank
    MACIEIRA

    E ENTÃO MACIEIRAS SEM OPURTUNIDADES PARA VENDER SUAS MAÇAS, DESSAS É QUE HÁ… SR. HENRIQUE VAI UMA MAÇAZINHA!?EHEHEH…

    Responder
  2. blank
    Henrique Ramos

    Há muitos Pereiras no mundo

    Responder
  3. blank
    PEREIRA

    SÓ FALTAVA ESTE…..AGORA VAI SER TAL OPINAR, HEM SENHOR HENRIQUE RAMOS?EU TAMBEM TERIA QUE OPINAR UMAS CERTAS COISAS, AGORA QUE VOCÊ DESCOBRIU ESTE SITE CERTAMENTE NÃO ME FALTARÃO OPURTUNIDADES NO FUTURO, VOCÊ QUE É UM HOMEM DE”OPURTUNIDADES”…..NÃO É SENHOR MACIEIRA?

    Responder
  4. blank
    Henrique Ramos

    Atenção, é importante esclarecer que há 2 anos vendiam-se patudos na lota a 1,5€ e hoje vendem-se a 3,40€ a esses barcos que estão fora do porto da Horta. Para os pescadores reprenta uma melhoria significativa. É suficiente? Não. O potencial do nosso peixe é enorme e este pode, de facto, ainda subir mais de preço mas há que ter em conta vários factores. Não será por ser somente um “patudo dos Açores” que lhe confere um estatuto que nos permita cobrar 30-40-60€/kg, é necessário garantir que são cumpridas uma série de exigências em termos de manuseamento do pescado, desde a captura ao embalamento, passando por formas refinadas de processamento. Além disso, o tamanho do peixe é importante, assim como os seus níveis de gordura. Isto são factores que não controlamos – se o peixe está perto, se são dos que têm tamanho suficiente para os patamares superiores de preços e se os seus níveis de gordura são os desejados no exigente mercado internacional. O risco de investir num barco para este tipo de produto é elevado. O Sr. Valdemar, tendo frequentado esse curso em LA sabe bem do que falo. Além do mais, o preço é alto se comercializado em fresco e toda a gente sabe das limitações que o escoamento em fresco enfrenta nos Açores. No que toca ao Rabilo, é mais complicado ainda pois os Açores não têm captura registada de rabilos, sendo a sua captura altamente regulamentada e monitorizada, não havendo interesse da Região em assumir descargas desta espécie em lota. Se apanharem um Rabilo e o levarem à lota, palpita-me que não vai ser descarregado como tal.. Este ano já foi melhor que o ano passado em termos de preços e para o próximo ano acredito que ainda vai ser melhor. Mais vale tarde do que nunca e o caminho é este. Situações como a do Sr. Valdemar são de lamentar e temos que nos assegurar que tal não se repita. Também cabe a todos nós fazermos com que assim seja.

    Responder
  5. blank
    milton ramalho

    acho um vergonha… agente pescadores a lutar nesse posso e dar de mamar aos outros nada dixo… dviam dar mais valor ao pescador…

    Responder
  6. blank

    Ai sim sr. (a)Gaivota? Então diga-nos lá até aonde nos levou essa tão bem feita gestão de recursos?Saiba que ando nisto há muitos anos e conheço bem as difernças.É por isso que subscreve inteiramente o texto do Sr. Valdemar Oliveira e o do Sr.Ricardo Silveira que, no seu comentátio, retrata perfeitamente o panorama da politica ou das politicas sucessivas das pescas na nossa Região que leva em passo acelarado a nossa frota para ruina.Não é isso que eu pretendo.Quero que a nossa Regiºão prospère que as mais valias do nosso pescado fiquem na Região!Vejo um navio ancorar fora da doca, um mês depois vejo outro e cerca de um mês depois outro…Estamos a ver o atum a passar debaixo do nosso nariz ao preço da uva “mijona” e pergunto-me:Estes barcos vêm de tão longe para buscar o nosso peixe porque é que não o vamos nós pôr lá?Para que é que serve uma Secretaria das Pescas num setor tão importante da nossa economia, que não cria as condições para linhas ou circuitos de escoamento, porquê?Será que vai colidir com interesses instalados desde sempre, não é?Claro que sim!

    Responder
    • blank
      Gaivota

      Sr. (a) Xaréu concordo plenamente com o que disse em relação ao atum e aos circuitos de escoamento, me repetindo o sr.(a) diz tudo, mas eu referia-me à frota regional que só fizeram caícos que quem sabe o que é o mar é de por as mão à cabeça, mas estes proliferaram como cogumelos qualquer trolha sapateiro funcionário publico reformado assim como outros basta só pedir e já está e eu referia-me era a isto.
      No tempo dos outros não era qualquer um que tinha barco, primeiro tinha-se que apresentar provas de saber, por exemplo barcos da Ilha Terceira não podiam pescar em São Miguel e vice versa assim como em outras Ilhas, antes havia poucos barcos e havia peixe para todos, agora o que se vê muitos barcos e muito pouco peixe para estes.
      Boas pescarias / vendas

      Responder
  7. blank
    ricardo silveira

    Independentemente dos partidos e da força politica da altura e dos tempos de hoje, nunca se preocuparam em rentabilizar os nossos recursos (pesca).O atum é uma espécie que tem anos bons e maus de captura na nossa região, á que desenvolver e inovar infraestruturas para transformação e elaboração do atum capturado nos açores, pois infelizmente continuamos com processos de congelação e armazenamento altamente ultrapassados(30 anos ou mais).
    Sabemos perfeitamente que existem mercados que pagam a peso de ouro o kilo de atum patudo e rabilo.Porque é que não nos involvemos nos mercados afim de termos grandes negócios??!!.
    Vem os de “fora” e roubam-nos o que é nosso.Taxas de lota, intermadiários,isso são ninharias para a nossa terra.
    Friends of the fish e etc, do que é que nos serve o nome se não tiramos partido e rentabilidade disso.Façam empresas e fábricas com gente competente.

    Responder
  8. blank

    Muito bem! Só se esqueceu de mencionar o PSD também.O PS limitou-se a copiar, para pior, a politica de pescas do PSD.A secretaria das pescas não é mais que uma agência de emprego e distribuidora de subsidios.Como dizia um colega, e muito bem, “TROCÁMOS OURO POR SUCATA”. Já resta bem pouco.Bem Haja!.

    Responder
    • blank
      Gaivota

      Não concordo com toda a sua planitude do seu comentário, é verdade que neste artigo pouco do PSD, mas talvez por haver pouco a falar na área das pescas.
      O único erro que julgo ter sido cometido pelo PSD foi não ter trocado a madeira pelo Aço ou Fibra, que este veio mais tarde a se tornar insubstituível na contrução naval nos Açores e a concepção destes, poderiam ter as linhas bonitas que se achava que dava dinheiro, mas só serve para inglês ver, em vez de espaço para armazenar pescado.
      Julgo que se tivessem investido no aço e na fibra ainda hoje tínhamos construção naval, foi os únicos erros na minha opinião porque todo o resto foi muito bem feito, até a gestão dos recursos.

      Responder

Deixe um Comentário